O Irã consolida a vitória na guerra contra EUA e Israel. A retirada estadunidense é apenas uma questão de tempo — talvez breve, talvez após novas rodadas de combate e mais oscilações no preço do petróleo. Mas, no essencial, o resultado já está dado.
O problema de Trump não é mais vencer, e sim administrar a derrota: encontrar algum ponto que possa ser apresentado como “vitória” antes da retirada.
Desde o início, os EUA entraram na guerra com um objetivo claro: forçar uma mudança de governo no Irã, preferencialmente substituindo-o por uma administração submissa.
Apostavam em um processo de enfraquecimento interno, alimentado por protestos iniciados em dezembro de 2025 e intensificados no começo do ano.
Havia também um cálculo político recente: a percepção de uma “vitória instantânea” em operações anteriores. O sequestro de Maduro na Venezuela alimentou a ilusão de que seria possível repetir o modelo.
O objetivo estratégico dos EUA era mais amplo: reorganizar o poder regional e ampliar o controle dos EUA sobre o Oriente Médio. O Irã seria o último e principal obstáculo.
O cenário parecia favorável. Mesmo após as derrotas no Afeganistão e no Iraque, os EUA e seus aliados acumulavam avanços: a queda rápida do governo Assad na Síria, a destruição de Gaza e a aparente neutralização do Hezbollah no Líbano. Parecia aberta uma estrada para consolidar o domínio regional, com Israel funcionando como seu “porta-aviões” avançado.
Ao mesmo tempo, outros focos de resistência pareciam contidos: os iemitas do Ansar Allah (chamados de Houthis pejorativamente) sem capacidade de dano decisivo, o Hamas resistindo sob ruínas, protestos pró-Palestina no Ocidente sem força para alterar políticas dos Estados ocidentais, e governos — especialmente as monarquias do Oriente Médio — mantendo alinhamento com EUA e Israel. Mesmo potências como Turquia, China e Rússia limitavam-se a reações diplomáticas formais.
A leitura dominante era de vantagem estratégica consolidada. Mas essa leitura se mostrou equivocada. A escalada militar revelou limites importantes. Após ataques diretos entre Israel e Irã, na chamada Guerras dos 12 Dias, em 2025, os EUA recorreram a demonstrações de força — como o uso de bombardeiros estratégicos B-2 contra instalações enterradas. Trump proclamou vitória, enfatizando a superioridade tecnológica e a capacidade de romper as defesas iranianas.
Essa forma de apresentar as coisas, amplificada pela mídia ocidental, sustentava a ideia de um Irã frágil: uma república instável, vulnerável à pressão externa e com uma população supostamente inclinada à ocidentalização. Nada disso se confirmou.
O Irã já tinha respondido com capacidade real de destruição. Seus contra-ataques, inclusive com mísseis balísticos que furaram as defesas aéreas israelenses, mostraram que o custo de uma escalada seria elevado. Mais do que isso, o Irã já havia atingido Israel em alvos militares, inclusive destruiu o Instituto de Ciências Weizmann, próximo a Tel Aviv. A situação que vemos hoje, já havia sido ensaiada em 2025. O Irã não respondeu com fraqueza. Respondeu com força, proporcionalmente e procurando ganhar tempo. Foi a arrogância e a verve genocida israelense que transformaram o ensaio da derrota em certeza de vitória, supostamente garantida com ações espetaculares e de impacto político como o assassinato do líder supremo, Ali Khamanei.
Os EUA acreditaram em sua própria história e atacaram. Não somente o Irã conseguiu acertar bases militares, infraestrutura militar e logística da região, como impactou diretamente os EUA ao tensionar o Estreito de Ormuz, provocando efeitos imediatos no preço do petróleo.
A partir daí, a equação mudou.
Qualquer ação mais agressiva dos EUA passou a implicar custos econômicos globais e riscos prolongados. A guerra deixou de ser uma operação controlável e passou a ameaçar interesses estruturais.
Nesse novo cenário, os objetivos de EUA e Israel deixaram de coincidir plenamente.
Para os EUA, a prioridade tornou-se limitar perdas e sair. Para Israel, a situação é mais grave: sem o apoio direto norte-americano, sua capacidade de sustentar múltiplas frentes simultâneas é limitada. O risco passa a ser estratégico — o fracasso de seu projeto de expansão regional, incluindo os Acordos de Abraão e a própria ideia de uma “Grande Israel”.
O Irã não apenas resistiu, mas conseguiu dividir seus adversários.
A mudança de postura dos EUA, inclusive com pressões para conter ações israelenses — como os ataques ao sul do Líbano — indica esse deslocamento. Ao buscar um acordo, Washington sinaliza limites claros para a continuidade da escalada. Isso se reflete também na relação com Israel. Ao restringir novas ofensivas e pressionar por respeito ao cessar-fogo, os EUA deixam de operar como sustentação irrestrita e passam a atuar como fator de contenção.
O resultado é uma inversão de iniciativa. Hoje, é o Irã que dita o ritmo. Mantém capacidade de pressão militar, influência regional e, sobretudo, impõe custos reais a qualquer tentativa de avanço inimigo. Israel, por sua vez, enfrenta uma das situações mais delicadas de sua história recente — comparável, em gravidade estratégica, ao contexto da Guerra do Yom Kippur, quando sua sobrevivência dependeu diretamente da intervenção dos EUA.
Pode haver novos ataques e mais combates, mas a tendência continua sendo dos EUA se retirarem. O que não se sabe é o que sobrará de Israel.