EUA e Irã assinaram um memorando público com os detalhes dos termos para o fim da guerra entre Irã e EUA, sem Israel, que terá que obedecer o que ficou decidido.
A vitória iraniana é indiscutível. Isso é página virada. O que virá agora é comparável ao que aconteceu com o Canal de Suez em 1956.
O imperialismo é um sistema que se apoia no controle territorial das fontes de matéria-prima e mercados, e isso significa, objetivamente, o controle das rotas de fluxo de mercadorias. Isso é assim hoje e foi assim com o colonialismo espanhol na América e principalmente para o imperialismo inglês, que dominou os mares durante o século XIX, enquanto impunha seus interesses nos quatro cantos do mundo.
A marinha britânica era o próprio imperialismo inglês, e a abertura do Canal de Suez, inaugurado em 1869, foi uma peça central de seu controle, especialmente da rota para a Índia. Na época, o Canal estava em território do Império Turco-Otomano, mas com a relativa autonomia até 1881-1882, quando houve uma revolta nacionalista no Egito que justificou uma intervenção militar britânica. Os ingleses bombardearam Alexandria e ocuparam o Egito em 1882. Tudo para proteger o Canal. Os ingleses dominaram o Egito informalmente até 1914, quando a Inglaterra declarou o Egito como protetorado formal, que com a derrota e a fragmentação do Império Otomano se tornaria “independente”, em 1922, com a Inglaterra mantendo o domínio militar e o controle do Canal. Em 1936, o tratado anglo-egípcio formalizou a presença militar britânica no Canal. Esse controle era fundamental para o império, já que ligava Londres à Índia e ao Oriente; a partir do século XX, os campos do Golfo Pérsico passaram a fornecer petróleo, e essa projeção naval garantia que a frota britânica se movesse rapidamente para o Índico e o Pacífico, e era um importante ponto de estrangulamento e controle.
Com o final da Segunda Guerra, a Inglaterra já não era mais a grande potência colonial mundial e os EUA iam gradativamente substituindo o seu papel. Em 1952, o Movimento dos Oficiais Livres derruba a monarquia vassala de Faruk, e Nasser ascende como liderança do movimento nacionalista que influenciaria todo o anti-imperialismo do mundo árabe.
Em 1956, Nasser assume oficialmente o controle do país como presidente e nacionaliza o Canal de Suez, em detrimento dos interesses de empresas francesas e inglesas.
Israel, por sua vez, via Nasser como inimigo fundamental, já que a resistência palestina, especialmente em Gaza, recebia apoio e treinamento a partir da fronteira com a Península do Sinai, e o Egito controlava o Estreito de Tiran, o caminho único ao porto israelense de Eilat, no Mar Vermelho.
Israel, França e Inglaterra fizeram um acordo para uma ofensiva contra o Egito. O plano era Israel invadir a Península do Sinai, enquanto França e Inglaterra tomariam o Canal de Suez. A operação deu certo: Ben Gurion entrou no Sinai em 29 de outubro de 1956, enquanto tropas francesas assumiam o Canal. A derrota seria política e veio na sequência. A URSS ameaçou intervir e os EUA condenaram a invasão na ONU.
A Crise do Canal de Suez foi um momento da história da Ásia Ocidental com alguns detalhes importantes. Primeiro, com a intervenção da URSS, o mundo árabe poderia ser colocado na órbita soviética. A URSS havia se manifestado de forma dura sobre a possibilidade de intervir, inclusive com ameaça nuclear velada. Por outro lado, a crise na Tchecoslováquia pôs a URSS como interventora em um país soberano, já que haviam entrado com tanques do Pacto de Varsóvia em Praga.
Para os EUA, apoiar a invasão significaria fortalecer Nasser e jogar toda a região no colo dos soviéticos. Assim, nesse momento, as duas potências ficaram com a mesma posição e a França e a Inglaterra foram obrigadas a recuar.
A chamada Doutrina Eisenhower, que seria uma extensão da Doutrina Truman para o Oriente Médio, ou seja, conter o avanço soviético como política de governo, mas, nesse caso, aplicado ao Oriente Médio (Ásia Ocidental), com a intenção de conter o nacionalismo árabe e evitar que este se vinculasse à URSS. Segundo essa doutrina, os EUA apoiariam qualquer governo árabe contra a influência do “comunismo internacional”. Em 1958, os EUA deram apoio ao governo do Líbano contra um grupo influenciado pelo nasserismo
Da crise de 1956 entre as potências, depreende-se duas coisas:
Primeiro, a Inglaterra não era mais capaz de se impor como potência militar, e foi obrigada a se retirar. A partir desse momento, apenas atuaria em conjunto e coordenada com os EUA. Por outro lado, Nasser reafirmou a sua liderança no mundo árabe, alimentando o chamado pan-arabismo nacionalista e anti-imperialista, com teor socializante.
A Inglaterra não se tornou uma potência de segunda categoria por ação de uma situação inusitada ou algo assim. A derrota inglesa veio da incapacidade militar de se impor sem o apoio americano, que, nessas circunstâncias, não estava alinhado à iniciativa de Israel, França e Inglaterra.
A intervenção na crise de 1956 teve um efeito contrário: projetou Nasser e aproximou o pan-arabismo da URSS. A consequência imediata foi o encorajamento de Nasser em suas medidas nacionalistas, com auge na formação da República Árabe Unida, uma união política entre Egito e Síria, que foi efêmera por divisões internas, mas demonstrou o ímpeto do Egito em patrocinar o pan-arabismo. O nasserismo não aderia ao modelo soviético e ao marxismo-leninismo, chegando a opor-se e reprimir comunistas em seus países, porém aplicando medidas estatizantes e um controle do aparato estatal pela União Socialista Árabe.
Nasser, além de nacionalizar o Canal de Suez, na década de 1960 nacionalizou bancos, seguradoras, a grande indústria e o comércio externo, aprofundou a reforma agrária e, em 1962, formalizou o “socialismo árabe” como ideologia oficial do Estado egípcio, com a “Carta Nacional”. No meio da década de 1960, os EUA já haviam percebido que a oposição direta a Nasser seria uma forma de se posicionar na região que teria o mesmo resultado político que os países colonialistas tiveram em 1956, e alimentaria o pan-arabismo secular republicano.
A doutrina intervencionista norte-americana foi abandonada em favor de uma política de cooptação e apoios indiretos, e intervenções indiretas. O governo norte-americano procurou fortalecer as monarquias, especialmente a Arábia Saudita, contando com Israel para intervenções mais específicas. Ao mesmo tempo, procurava cooptar governos republicanos inicialmente nascidos da agitação nasserista dos anos 1960.
Com a morte de Nasser em 1970, o sucessor Sadat estava muito mais aberto para receber benefícios dos EUA e, até a década de 1980, foi se afastando do nasserismo estatizante, aplicando medidas neoliberais que já nessa época emergiam como a nova política norte-americana, o chamado Consenso de Washington.
O pan-arabismo secular foi se enfraquecendo, e os líderes revolucionários dos governos nacionalistas foram perdendo apoio popular. O imperialismo reestruturou o sistema de dominação para o formato que os EUA começariam a promover desde o final da guerra, uma maneira de substituir o antigo colonialismo europeu pelas eleições “livres” ou mesmo monarquias, contanto que houvesse “liberdade” para os monopólios estadunidenses explorarem o comércio, o sistema financeiro e as fontes de matéria-prima destes países.
A Revolução Iraniana de 1979 criou a alternativa anti-imperialista ao pan-arabismo secular e passou a inspirar um outro tipo de resistência no mundo árabe, menos ligada ao republicanismo árabe como unidade ideológica das populações da Ásia Ocidental e mais centrada na unidade muçulmana como fator de unidade regional.
Os inimigos da luta anti-imperialista eram os mesmos: Israel, EUA e as monarquias vassalas, mas o xiismo foi surgindo como ponto de unidade política e ideológica da resistência.
Foram 40 anos de maturação e, ao que tudo indica, viveremos um ciclo similar ao nasserismo egípcio, agora com o Irã como símbolo da resistência anti-imperialista na região. Do mesmo modo que aconteceu com a Inglaterra em 1956, que foi gradativamente se retirando da Ásia Ocidental, os EUA diminuirão a influência na região.
O que é diferente é que não há uma potência imperialista com capacidade de substituir os EUA, e a vitória do Irã é também uma vitória em escala maior, já que não só há a derrota de um imperialismo e a substituição por outro, mas a própria dificuldade de qualquer potência imperialista, como Rússia e China, em se impor sobre o Irã.
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