Nós todos assistimos o cerco genocida aplicado por Israel contra o povo palestino que vive na Faixa de Gaza. Desde 2007 Gaza está cercada. Os palestinos não podem sair e nem entrar sem um estrito controle sionista. Alimentos, medicamentos, materiais de uso civil diversos. Tudo é controlado, tudo é inspecionado e dificultado. Esse cerco foi aumentado com os ataques que se sucederam ao 7 de outubro, quando o Hamas conseguiu romper o cerco, atacar o território inimigo e capturar reféns.
Desde então a política de impedir a entrada e saída de pessoas, alimentos, medicamentos e insumos básicos para a própria manutenção da vida passaram a ser total. Esse cerco brutal gerou fome, doença e morte. Mas se não bastasse o cerco, crianças famintas e desesperadas, Israel permaneceu bombardeando a estreita faixa de 40 km de Gaza com mísseis civis que ceifaram a vida de mais de 60 mil palestinos, grande parte crianças e não combatentes. Reduziram a cidade de 2 milhões de pessoas a escombros, e onde conseguiam entrar, prenderam pessoas, mataram a esmo, humilharam de mil maneiras.
O mundo inteiro protestou nas ruas, e inclusive tem conseguido enviar barcos para tentar romper o cerco no Mar Mediterrâneo, gerando incidentes que expõe ao mundo a atuação genocida, mas principalmente de total desrespeito às leis internacionais com que age Israel. Certamente a maior derrota sofrida desde o 7 de outubro foi o desgaste de Israel frente à opinião pública mundial. Mas se por um lado hoje qualquer pessoa minimamente humanizada vê na prática de Israel uma atuação absurda, por outro lado poucos governos mudaram sua relação com Israel.
O povo protesta na rua, em todo mundo, mas os governos cedem e mantêm-se neutros na prática. Outros organismos internacionais, por outro lado, são incapazes de intervir ou ter ações que realmente interfiram na situação.
O genocídio em Gaza foi um marco, já que foi televisionado (ou compartilhado) aos milhões. Mas nada aconteceu de fato. As vitórias palestinas foram conquistadas pela luta palestina dura, não foram concessões ou pressão de potências. A mensagem ficou clara. Não há mais opinião pública que vá se levantar contra ataques militares contra civis ou se horrorizar a ponto de se posicionar e isolar o sionismo. Não adianta questionar, não precisa de apoio público mais. As potências, e especialmente EUA, podem seguir o exemplo palestino: matar civis sem que haja uma comoção nacional que os impeça de continuar as suas barbaridades.
Gaza significou um terrível marco no avanço de repressões que se imaginavam existirem apenas em filmes distópicos de ficção científica ou em filmes sobre o Holocausto nazista. Gaza não inaugurou os massacres coloniais nem a barbárie imperialista. O século XX está repleto deles. O que Gaza talvez tenha inaugurado seja outra coisa: a naturalização pública, televisionada e assumida dessa violência, sem sequer a necessidade do velho verniz humanitário que durante décadas acompanhou as guerras das potências ocidentais.
A brutalidade sionista assumida, sem vergonha, sem consequências, pareceu para muitos esse momento histórico que dividiu uma época em que guerras e abusos eram acompanhados ao menos da necessidade de justificativas morais, diplomáticas e humanitárias. Agora a barbárie não apenas é praticada, ela é defendida publicamente. Matar crianças, torturar prisioneiros, bombardear civis, deslocar populações, destruir cidades inteiras e transformar milhões de pessoas em refugiados internos deixa de ser escondido e passa a ser tratado como método legítimo de guerra.
E nada acontece. Israel continua impune. Todos sabem, é tudo filmado e nada acontece. Poucos países se manifestam contra e quase nenhum rompeu relações.
De fato, essa não é a unica verdade da história. O imperialismo produziu massacres brutais e segue produzindo. Massacres de civis, abusos de todo tipo não são novidades. É difícil medir se hoje isso é mais claro para a opinião pública e ela decidiu ignorar, tamanha a quantidade de informações e vídeos, já que hoje há também uma manipulação da atenção, há a desconfiança gerada pela IA e suas imagens falsas e uma série de novas circunstâncias de desinformação que podem diminuir o impacto das mortes em Gaza de bebês atingidos por bombardeios, se compararmos com a icônica foto da menina de My Lai no Vietnã atingida por napalm.
O que é importante destacar é que esses 2 anos de violência filmada contra palestinos em Gaza, sem consequências mais graves a curto prazo, alimentam novas barbaridades. A nova invasão do Líbano por Israel é prova de que para o sionismo, Gaza é um modelo que eles podem não só praticar, mas abertamente defender como método de invasão e guerra.
“Estamos impondo um cerco total a Gaza. Sem eletricidade, sem comida, sem água, sem combustível.” Yoav Gallant, ministro da Defesa de Israel, 9 de outubro de 2023.
E Cuba aparece nesse contexto.
O maior bloqueio realizado pelos EUA é contra Cuba e tem 66 anos.
Desde que os revolucionários cubanos chegaram ao poder e aplicaram o programa nacionalista, os EUA têm tentado mudar o governo e retornar à situação de vassalagem que caracterizou os governos pré-revolução desde que Cuba havia se tornado independente da Espanha no finalzinho do século XIX.
Sob pretexto de defender os interesses e empresas norte-americanas que haviam sido prejudicadas com as medidas de confisco e desapropriação, os EUA iniciam o maior embargo econômico da história recente, criam uma máquina burocrático-militar que visava sufocar, estrangular e gerar sofrimento civil que propiciasse a queda do governo.
O regime norte-americano, nessa época, não admitia que visava com o embargo levar a população a um sofrimento, à fome e à escassez que demonstrassem a incapacidade do governo revolucionário de trazer bem-estar à maioria dos cubanos. O problema era que, embora houvesse uma elite que ganhava com a relação de vassalagem pré-revolucionária e mantinha uma vida de fartura na ilha caribenha, a maioria esmagadora da população vivia em uma situação de penúria total, com altíssimos índices de miséria
A Revolução Cubana mudou rapidamente a situação. Confiscou, distribuiu, alfabetizou e universalizou o acesso à educação, saúde, moradia e à terra. Cuba mudou radicalmente e se tornou muito rapidamente uma referência para os miseráveis do mundo.
E tinha um governo sólido, orgulhoso e vitorioso que, depois da tentativa fracassada de invasão por grupos contrarrevolucionários, não parecia ser capaz de ser derrubado por uma oposição interna, nem por uma invasão externa.
Com a crise dos mísseis, a situação ficou ainda mais complicada, já que outra potência nuclear, a URSS, havia colocado nos termos de seu acordo com os EUA as garantias de não invasão da ilha pelas tropas yankees.
A estratégia norte-americana passou, assim, a ser um desgaste a longo prazo, o chamado embargo.
Essa opção pelo cerco se tornaria permanente. A derrota no Vietnã havia mudado estruturalmente o apetite militar norte-americano. Os EUA não estavam dispostos a repetir o custo humano e político de uma guerra de ocupação. Quando a URSS acabou em 1991 e a garantia soviética deixou de existir, os EUA não retomaram a opção da invasão: a vitória dos vietnamitas, ou seja, a doutrina de diminuição dos custos humanos norte-americanos, sistematizado na chamada Doutrina Powell, já havia fechado essa possibilidade.
Provocar fome, sofrimento, doença e morte intencional à população civil de maneira deliberada é crime de guerra. Como os EUA haviam saído da 2ª Guerra como vitoriosos e guardiões da liberdade contra os nazistas e depois contra os comunistas, essas deliberadas medidas de cerco criminoso não foram admitidas pelos EUA. Na época os EUA ainda mantinham um verniz liberal e democrático. Porém, a partir da década de 1970, mas principalmente na década de 1980, o documento “Memorando Mallory”, um documento classificado como secreto e confidencial escrito em 6 de abril de 1960, havia se tornado público e divulgado amplamente como uma confissão de que os EUA usavam medidas consideradas como crime de genocídio contra o povo cubano.
Esse documento foi um escândalo, ele comprovava o que os cubanos denunciavam desde o início da década de 1960, circulava nos círculos do governo como uma orientação política sobre a relação dos EUA com Cuba e ironicamente havia sido divulgado por uma lei estadunidense de acesso a informações classificadas.
Lendo os trechos abaixo nós conseguimos ter uma dimensão do porquê esse documento é considerado uma confissão de crimes contra a humanidade.
“A maioria dos cubanos apoia Castro. Não há oposição política efetiva. O único modo previsível de alienar apoio interno é através do desencanto e da insatisfação baseados em dificuldade econômica e privação. Como vemos, todos os meios possíveis deveriam ser realizados rapidamente para debilitar a vida econômica de Cuba. Uma linha na qual os EUA poderiam aderir, e da qual não deveríamos ser desviados por chamadas humanitárias ou amenidades, seria bem dentro do reino de possibilidades do objetivo declarado.”
“É opinião do Departamento que a linha de ação que oferece maior promessa de atingir objetivos americanos em Cuba é aquela que, sendo tão hábil (adroit no original) e discreta quanto possível, consegue máximo progressos em negar dinheiro e suprimentos a Cuba, reduzir salários reais, provocar fome, desespero e queda do governo.”
A confissão que o memorando revela encontra sua expressão doutrinária na chamada Doutrina Powell, formulada após a derrota no Vietnã. Em 1991, no contexto da Guerra do Golfo, Colin Powell (chefe do Estado-Maior do governo Bush) formalizou os princípios que a vitória vietnamita havia imposto na prática: 1) só entrar em guerra se o objetivo é claro e vital; 2) só se houver apoio público americano; 3) só se houver estratégia de saída rápida e 4) usar força esmagadora (overwhelming).
Com isso se esperava zero baixas para os EUA, e isso acabou priorizando bombardeios e cercos, medidas militares que em geral são crimes de guerra e visam não alvos militares, mas uma pressão absurda sobre a população, imaginando que com isso poderão propiciar a queda do governo hostil.
Esse cerco criminoso contra Cuba é evidentemente crime de genocídio e contra a humanidade, tanto que é anualmente denunciado na ONU e votado resoluções contra desde a década de 1990.
O que Gaza trouxe de novo foi o assumimento descarado, a partir da típica arrogância sionista com o desrespeito geral a qualquer regra humanitária pela atual cúpula sionista-trumpista.
Depois de Gaza a porteira da barbárie foi rompida e as potências não se sentirão coagidas a fingir humanidade.
O colonialismo assume sua verdadeira face, retira o verniz e o véu, e assume o seu papel de agente da morte, do caos e da barbárie em nome de seus interesses políticos e econômicos.
O limite humanitário acabou. Os monstros não só estão soltos, como agora se orgulham com arrogância dos seus planos genocidas.
Ao mundo cabe não o pedido de clemência, mas a resposta firme e decidida, como tem feito o Irã, não aceitando a ameaça, o crime humanitário como dissuasão, mas como alimento para a resistência. Como Cuba tem ensinado a resistir e vencer, vai resistir a esse novo aperto do cerco.
Nas próximas semanas iremos publicar outras partes deste artigo, da série: “O bloqueio criminoso contra Cuba”.
BIBLIOGRAFIA
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GOTT, Richard. Cuba: uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
MALLORY, Lester D. Memorando sobre a política dos EUA em relação ao governo Castro. Documento Secreto do Departamento de Estado, 6 de abril de 1960. Desclassificado e publicado nos Foreign Relations of the United States (FRUS), 1958–1960, Vol. VI, Cuba. Washington: U.S. Government Printing Office. Disponível em: https://history.state.gov/historicaldocs/frus1958-60v06
SECRETO, Maria Verônica (org.). “Reforma Agrária e Socialismo na América Latina: Cuba e Chile”. In: Agrarismos — Estudos de História e sociologia do mundo rural contemporâneo. Rio de Janeiro: Mauad, 2017.