Como já apontamos neste humilde espaço vermelho de análise, a guerra contra o Irã já havia terminado. Metaforicamente, estávamos diante de um xeque em dois no tabuleiro do xadrez: não há mais possibilidade de vitória para uma das partes, e o xeque-mate é inevitável em pelo menos dois lances. É uma situação comum no xadrez.
Para o jogador que está perdendo, um xeque em dois é a oportunidade de desistir e se retirar do jogo — geralmente com o gesto de derrubar o próprio rei e aceitar a vitória do adversário. Quando alguém se encontra encurralado e incapaz de desfazer o xeque-mate, aceitar a derrota é também uma maneira de dizer: “Eu sei que joguei mal, errei. Porém, ao menos, consigo prever alguns lances à frente e sei que não posso mais vencer. Aceito o inexorável e reconheço que o adversário esteve à minha altura — e um pouco melhor.”
É claro que o jogador que está perdendo pode não reconhecer, ou mesmo não perceber, que já perdeu. E então procura resistir ao xeque-mate. Geralmente, essa resistência torna-se patética: demonstra não só a derrota inevitável, mas confirma a incapacidade de visão estratégica do derrotado. Confirma ainda mais a derrota e a inferioridade de quem perde.
No tabuleiro desta Guerra, é a campanha de Trump que está encurralada. Não os EUA como potência — mas esta guerra, esta aposta, esta estratégia. E cada movimento dos líderes estadunidenses apenas confirma isso. A reação de Trump, e especialmente de Pete Hegseth, tentando vender uma vitória com declarações de superioridade, é tão patética que nem os mais fanáticos trumpistas têm conseguido acreditar. Ninguém sequer acompanha mais essas declarações com seriedade. Todos aguardam o recuo inevitável e a janela para o fim do conflito — especialmente o mercado de petróleo, que na sexta-feira havia fechado com o barril acima de 100 dólares.
Por enquanto, estão em negação, não acreditam no xeque mate e ameaçam, tentam plantar debates artificiais na imprensa sobre um grande ataque, um bombardeio nuclear ou qualquer ameaça que mude a posição firme do Irã. Aguardam, ansiosos, que o Irã aceite negociar e indique um caminho honroso para Trump e, especialmente, para Hegseth — que possivelmente terá que assumir todo o ônus da derrota norte-americana.
O Irã consegue manter a situação de impasse e cerco por mais tempo e, em caso de retomada dos ataques, consegue suportar mais destruição e baixas do que os EUA e Israel. O Irã não tem pressa — ou não tanta. Os EUA têm um limite bem menor: Trump tem poucas semanas, porque, após 60 dias do início — prorrogáveis por mais 30 —, a guerra terá que ser aprovada pelo Congresso. Há republicanos contra e dissidências políticas relevantes no trumpismo.
Os EUA não têm saída. Terão que organizar uma retirada com duas possibilidades reais: aceitar a derrota do governo Trump — e por mais que esbraveje a vitória, todos sabem que houve derrota—, deixando Israel sozinho diante de um Irã vencedor e de populações islâmicas com a moral elevada, ampliando a influência iraniana na região. Ou fazer exatamente isso após um ataque maior, com um contra-ataque certo do Irã que transformará o custo para os EUA e para a economia mundial em uma derrota dezenas de vezes pior.
O Irã afirma suas posições e tem cumprido suas promessas até agora. Se houver ataques à infraestrutura civil e de energia, irá destruir os equivalentes na Arábia Saudita, nos Emirados e no Kuwait. Além do risco de uma crise ainda maior, há o perigo de radicalização ou enfraquecimento dos governos e monarquias vassalas dos EUA, de levantes populares xiitas e de revoluções em todo o mundo muçulmano.
A influência do Irã sobre os muçulmanos cresceu tanto que Erdoğan — que disputa esse espaço de liderança muçulmana como herdeiro do Império Otomano — rosna para Israel. Egito e Arábia Saudita, outros dois grandes países da região, esperam ansiosos que o Irã se enfraqueça, mas sem poder atuar ao lado dos EUA, sob risco de revolta popular em seus próprios países.
A situação é favorável ao Irã. As ameaças descalibradas de Trump e sua estratégia errática de gritar e chamar para um acordo não surtiram efeito.
O Irã não indica uma saída honrosa para Trump. Ao contrário — já sabendo do xeque-mate —, fustiga o inimigo, aperta, sangra e continua a golpear, procurando ampliar a derrota dos EUA e de Israel. Nitidamente, o Irã busca chegar ao limite máximo de humilhação dos EUA. Assim, Trump e os generais estadunidenses não ousarão repetir o ataque à soberania iraniana.
O Irã herdou o aprendizado de muitas guerras contra europeus e americanos — especialmente as guerras do Oriente Médio — e estudou por pelo menos 20 anos o padrão de atuação dos imperialistas, aprendendo, principalmente, como vencê-los. Uma lição fundamental foi não confiar nos EUA. Eles não têm palavra e são traiçoeiros. Nenhum acordo pode ser garantido se não for pela força das armas. Há que suportar o custo e o sacrifício. Recuar, esperar clemência ou humanidade é um caminho para a derrota.
O Irã segue firme o seu destino e, diante do desespero norte-americano por um acordo, impõe suas condições. Manterá a postura de não ceder, mobilizará a sua própria unidade interna, capitalizará a vitória no meio islâmico, fechará ao máximo as bases dos EUA no Oriente, enfraquecerá Israel para que suas contradições internas o consumam, controlará e redirecionará o Estreito de Ormuz e isolará os EUA e Israel no cenário internacional.
Trump está com 62% de rejeição depois que atacou o Irã. Se o ataque fulminante que promete se efetivar, sob qualquer justificativa, irá isolar-se ainda mais, encontrará maior rejeição interna, mais divisão em suas bases — e tudo isso com o calendário das midterms avançando.
Quanto mais Trump adia a retirada, mais problemas terá e maior será a derrota.
O xeque-mate está logo ali.
Fontes e referências
The New York Times — Bastidores da decisão de Trump de entrar na guerra contra o Irã Reportagem de Maggie Haberman detalhando as pressões internas e a influência de Netanyahu na escalada do conflito, incluindo as apresentações realizadas ao longo de fevereiro e o entusiasmo com a “vitória” na Venezuela como fator motivador. 🔗 https://www.nytimes.com/2026/04/07/us/politics/trump-iran-war.html
John Helmer — Análise estratégica: o episódio do cargueiro iraniano Análise do jornalista e comentarista político John Helmer sobre o episódio de interceptação do cargueiro iraniano em uma perseguição de 6 horas. Segundo Helmer, a demora demonstra hesitação do comando iraniano e uma possível provocação deliberada dos EUA, à espera de uma reação iraniana que justificasse o fim do cessar-fogo. O navio Tucatá seria uma jogada clássica para criar um precedente ou uma nova situação de força. O Irã, no entanto, não aceitou a provocação, não abriu o estreito e não foi à mesa de negociações em Islamabã nas circunstâncias de bloqueio impostas pelos EUA. 🔗 https://youtu.be/Qlw0LiZhqUQ?si=NvAN-1RJTiO_KV4b