31 de março — O Bravateiro-mor Trump não sabe o que fazer

Xadrez aiatolá

No dia 23 de março, Trump havia anunciado uma pausa limitada nos ataques e declarou que o Irã estava cedendo — fato negado pelos iranianos. Trump tentava forçar uma realidade que gostaria que estivesse acontecendo; porém, o Irã manteve-se firme e resoluto em seus objetivos.

No dia seguinte, Trump anunciou formalmente os 15 pontos e as tratativas por meio do Paquistão, certamente esperando alguma brecha para negociar, alguma posição conciliadora, algum aceno de recuo. Mas nada. O Irã se negou e manteve os ataques. A guerra não é como uma negociação comercial ou uma campanha eleitoral: há fatos muito objetivos, e a atividade militar é, por si só, um terreno da racionalidade. O mundo das narrativas e das pós-verdades tende a sofrer derrotas nesse ambiente militar real, com o inimigo à espreita.

Trump, ao longo dos dias, oscilou (imaginando estar tratando com o mercado imobiliário de Nova York), esperando algum caminho, algum indício de fragilidade, algum recuo ou uma brecha para explorar. O Irã, por sua vez, respondeu como uma rocha impenetrável. Trump insistiu com ameaças de invasão e com mais bombardeios.

Israel assassinou mais um comandante iraniano. E o Irã continuou fechando o Estreito de Ormuz e ameaçou fechar o estreito de Bab el-Mandeb, que fica na rota que leva ao Canal de Suez e à Europa. O comando iraniano também ameaçou retaliar instalações nucleares, incluindo ataques a instalações israelenses, que inclusive teriam sido atingidas em Dimona. Também ameaçou bases aéreas e todas as instalações de petróleo, gás e unidades dessalinizadoras dos países árabes que tenham relação com os EUA, caso sejam atingidas ou destruídas as unidades produtoras de petróleo e gás (incluindo a ilha de Kharg), que foram citadas como objetivos das tropas que estão sendo enviadas para o entorno do Irã.

Como o Irã não blefa, o mundo todo sabe que, se os EUA fizerem um ataque à infraestrutura de petróleo do Irã, eles farão exatamente o que estão afirmando.

Enquanto isso, Trump precisa conviver com o Estreito de Ormuz fechado. A gasolina nos EUA está atingindo níveis recordes. O Irã colocou condições para a passagem pelo estreito, e essas condições são impedir a passagem de quem colaborar com os EUA e Israel, além de exigir pagamento e negociação em yuan, e não em dólares. A atuação resoluta do comando iraniano deixa Trump sem opções, e o tempo — não no longo prazo como no Iraque e no Afeganistão, mas em semanas e até dias — aumenta a pressão sobre os EUA.

O Irã não precisa de muito tempo para vencer os EUA; bastam semanas. Trump está em um buraco e, em vez de tentar sair, cava ainda mais a própria cova.

Objetivamente, a situação é de xeque-mate em dois ou três lances. Não há como abrir o Estreito de Ormuz nem como evitar ataques a Israel e aos países árabes.

Não adiantaria bombardear áreas militares que não se sabe onde estão, nem áreas civis — isso só faria o Irã reagir mais e aumentar o recrutamento voluntário. Da mesma forma, uma invasão terrestre teria grandes chances de fracassar.

Enfim, é uma questão de tempo — pouquíssimo tempo — para que o xeque-mate seja confirmado.