28 de março — 1º mês da guerra contra o Irã

avião abatido

(3ª Guerra do Golfo Pérsico)

Pontos:

O objetivo do ataque dos EUA e Israel ao Irã era a derrubada do governo iraniano. Não conseguiram. Imaginavam que colocariam outro governo em poucos dias. Assassinaram Khamenei e parte do comando do exército iraniano.

Ao atacar o Irã com bombardeios, o plano de defesa nacional foi colocado em marcha. Imediatamente os comandantes foram substituídos, assim como o próprio líder supremo, conforme os mecanismos internos do das instituições iranianas. Milhares de drones e mísseis foram lançados em direção às bases militares americanas e a Tel Aviv.

Os ataques mais importantes do Irã se concentraram nos radares e sistemas que ajudaram os EUA no ataque. Outro objetivo era esgotar os mísseis dos sistemas de defesa de Israel e dos EUA.

A segunda parte do plano iraniano era fechar o Estreito de Ormuz, criando um impacto sobre a economia mundial com o aumento do preço do petróleo e inflação.

Parte do plano iraniano necessitava de unidade interna. Essa unidade foi subestimada pelos EUA e Israel, e o martírio de Khamenei e de outros líderes serviu para unificar ainda mais o país.

O Irã, ao contrário de Trump, não blefou. Cumpriu tudo que prometeu, foi claro em seus comunicados e não realizou ataques indiscriminados. Atacou bases militares dos EUA e Israel que haviam participado dos ataques iniciais.

Inclusive, quando atacou monarquias árabes e hotéis de luxo, tratava-se de ataques contra tropas norte-americanas que haviam sido evacuadas das bases e estavam nesses locais.

O Irã é o país agredido. Teve seu principal líder assassinado em meio a negociações. O Irã não iniciou guerras recentes contra outros países e não possui armas nucleares.

Porém, foi atacado por Israel e EUA, potências estrangeiras, com bombardeios que atingiram população civil iraniana (inclusive uma escola de meninas), em uma atitude covarde, movida por propaganda ocidental preconceituosa e islamofóbica.

Tudo dirigido por um governo israelense desacreditado internacionalmente, responsável pela destruição de Gaza, milhares de crianças mortas e um território reduzido a escombros.

No lado americano, um líder narcisista, com falas estapafúrdias, envolvido em escândalos como o caso Epstein.

A principal derrota de Israel e dos EUA é moral.

Com o contra-ataque iraniano, o ainda inimaginável aconteceu: um país periférico, do chamado Sul Global, historicamente pressionado pelo imperialismo, conseguiu responder em uma guerra convencional por um mês, mantendo a iniciativa, degradando a capacidade do inimigo e obrigando-o a recuar.

Isso sem o apoio direto de uma superpotência rival como existia durante a Guerra Fria. Usando apenas as contradições entre potências e sua própria capacidade nacional.

E não apenas com resistência guerrilheira como no Iraque, Afeganistão e Palestina, mas com ataques diretos a posições, tropas e equipamentos do inimigo.

Isso é algo inédito e pode marcar uma virada (iniciada em 7 de outubro em Gaza) no processo histórico de descolonização do mundo e de enfraquecimento do imperialismo.

Trump ficou sem saída. Está perdendo a guerra. Tentou em vão indicar que aceitaria uma saída honrosa, mas a direção iraniana se negou.

As forças armadas iranianas responderam o recuo e o aceno de Trump com mais ataques e com a exigência de condições que não permitem que Trump apresente o resultado como vitória.

Os iranianos não vão recuar.

A avaliação de Teerã é estratégica: um recuo permite que o inimigo se reorganize para um novo ataque. Se o inimigo recua, a resistência deve avançar.

Trump está perdido.

Não pode evitar impactos econômicos, não pode impedir ataques às suas bases nas monarquias árabes, não pode garantir a segurança de Israel e muito menos mudar o governo iraniano.

A única coisa que sobrou é tentar aumentar a escalada indefinidamente para intimidar o adversário. Mas o Irã sinaliza que vai responder na mesma medida e controla a escalada.

E os EUA, se não se retirarem agora, vão mostrar ao mundo que não têm cartas na mão, que todo seu jogo de intimidação não passa de blefe.

Os iranianos afirmam estar preparados para qualquer ataque terrestre. Estão avisando e, ao contrário dos americanos, afirmam cumprir o que anunciam. Prometem transformar a presença militar norte-americana na região em um custo permanente.

Trump já perdeu. Não vencerá.

Trump poderá entrar para a história como o presidente que perdeu uma guerra contra uma nação do mundo periférico. Uma das maiores derrotas estratégicas dos EUA. Maior, em impacto político potencial, que Vietnã, Iraque e Afeganistão, onde os EUA se retiraram depois de anos de desgaste, mas conseguiram inicialmente invadir e definir governos.

Os EUA podem estar diante de uma grande derrota estratégica, enquanto o mundo periférico pode estar vivendo mais uma etapa do longo processo de descolonização iniciado no século XVIII com a própria independência dos EUA do Império Britânico, passando pelas independências da América Espanhola, pelas lutas após a Primeira Guerra Mundial, pela Revolução Russa, pela Revolução Chinesa, pela Batalha de Dien Bien Phu e pela Revolução Cubana.

A descolonização ainda em marcha da África e outros processos inconclusos.

O Irã pode se tornar um ponto de inflexão histórica. Pode alterar o equilíbrio regional na Ásia e produzir consequências profundas no Oriente Médio.

Estamos assistindo momentos históricos.