Essas informações são de outubro de 2026.
O rápido avanço do Ansar Allah contra posições sauditas entra no contexto da grande derrota imposta aos EUA e seus aliados no Oeste da Ásia, que teve início com ação militar da resistência nacional palestina em 7 de outubro de 2023 e tem expulsado os EUA do Oeste da Ásia e deixado os aliados em uma crise sem precedentes.
A formação militar do Ansar Allah
Os anos iniciais da década de 2000 serviram como os anos de formação militar do movimento, usando os métodos típicos da guerra irregular, guerrilha ou guerra assimétrica, como se tem chamado a guerra popular por analistas ultimamente. O Ansar Allah possuía uma penetração popular no norte montanhoso, conhecimento de terreno, mobilidade e enfrentava um governo iemenita cada vez mais desmoralizado. As comunidades camponesas da região foram cada vez mais prestando apoio, enquanto os combatentes ganhavam experiência militar, organizacional e política.
Em 2009 e 2010 o Ansar Allah precisou enfrentar a Arábia Saudita, que, ao contrário do que tudo indicava, entrou em um atoleiro do qual até hoje não conseguiu sair.
Quando chegou a Arábia Saudita, o aparato militar moderno, caro e complexo não conseguia causar dano em uma força insurgente invisível, fragmentada por um território inóspito, sem comandos e instalações militares que pudessem servir de alvo. A guerra que a Arábia Saudita queria impor aos guerrilheiros já era conhecida e os ataques de um inimigo invasor pró-americano só mobilizavam mais a resistência em torno do Ansar Allah e desmoralizavam o governo iemenita como colaborador com o invasor.
Da Primavera Árabe à coalizão saudita
Em 2011 a onda de mobilizações populares que varreu a região e ficou conhecida como Primavera Árabe derrubou também o governo de Saleh. Em 2012, Abdrabbuh Mansur Hadi assume a presidência de um governo de transição.
O governo precisou negociar com os insurgentes e houve uma tentativa de reorganizar o Estado iemenita que teve que incorporar o Ansar Allah. Em 2012 o movimento é integrado à política nacional. Há uma série de esforços para construir um Estado federal que represente as forças políticas iemenitas, porém o Ansar Allah não aceita. Dois anos depois, uma manobra política do governo retira os subsídios dos combustíveis e mais uma vez explode a rebelião popular.
O Ansar Allah organizou manifestações combinadas com ações militares. Em setembro de 2014, forças armadas que eram leais ao antigo presidente Saleh se aliam ao Ansar Allah para derrubar Hadi e marcham em direção a Sana’a, que cai logo depois. Hadi foge para Aden e depois para a Arábia Saudita, e o Ansar Allah continua seu avanço até posições do sul.
A pedido de Hadi, a Arábia Saudita entra no conflito em 2015, faz novas incursões militares e organiza uma coalizão. O Ansar Allah encontra apoio no Irã e passa a disputar militarmente o controle do país. E há um revés Aden passa a ser defendida com o auxílio da Arábia Saudita, enquanto a Arábia Saudita impede o controle total, mas é incapaz de eliminar o movimento.
A guerra gera uma crise humanitária devido ao bloqueio contra pontos de abastecimento e logística, especialmente Hodeidah (Hudaydah), por onde passavam alimentos, combustíveis e medicamentos. O Ansar Allah passa a utilizar mísseis, foguetes e drones. O país fica dividido, o norte, do Ansar Allah, e a região em torno de Aden e outras partes do sul com forças anti-Ansar Allah, mas heterogêneas e não necessariamente unificadas.
A partir de 2017 o Ansar Allah entra em conflito com Saleh, que se mantinha como aliado em Sana’a, mas começava a fazer movimentos de aproximação com a Arábia Saudita. Ele é morto pelo Ansar Allah em 4 de dezembro de 2017. Depois de um novo ciclo de batalhas entre 2017 e 2018, há um acordo assinado em Estocolmo, Hodeidah permanece sob controle do Ansar Allah e a guerra vive um momento de congelamento de grandes batalhas, com o movimento consolidando as suas áreas, enquanto as forças apoiadas pela Arábia Saudita se fragmentaram em contradições.
Em 2021 o Ansar Allah passa a uma ofensiva contra Marib, uma das portas de entrada para o leste e bastião [?] anti-Ansar Allah. Em abril de 2022, mediada pela ONU, há uma trégua.
O Dilúvio de Al-Aqsa no Iêmen em 2023
O impacto da ação do Hamas sobre o movimento Ansar Allah foi imenso e significou uma imediata elevação da moral dos combatentes.
Pouco mais de 10 dias depois do 7 de outubro, o Ansar Allah lança drones e mísseis em direção a Israel, assumindo fazer parte de uma solidariedade ativa aos palestinos.
No dia 19 de novembro, combatentes do Ansar Allah capturam o navio mercante Galaxy Leader, inaugurando a pressão do Ansar Allah sobre o Estreito de Bab al-Mandeb e o Mar Vermelho contra os aliados de Israel.
Em dezembro as ameaças do Ansar Allah ficam mais efetivas e começa a haver desvios de embarcações que precisam contornar o continente africano e passar pelo Cabo da Boa Esperança para chegar ao Mediterrâneo.
O porto de Eilat, em Israel, tem diminuição de fluxo e há o encarecimento dos fretes e custos operacionais. Entre 19 de novembro de 2023 e julho de 2024, pressionando contra o genocídio em Gaza, o Ansar Allah conseguiu atacar mais de cem embarcações, inclusive o maior mercante dos EUA e do Reino Unido.
Nos dias 11 e 12 de janeiro de 2024 os EUA e o Reino Unido lançam um ataque contra o Iêmen. Os ataques e contra-ataques se desenrolam ao longo do 1º semestre. Israel não havia feito ataques até julho de 2024, mas após o Ansar Allah conseguir atingir Tel Aviv em 19 de julho, o regime sionista lança bombas sobre o porto de Hodeidah.
Em dezembro de 2024 há novos ataques e contra-ataques, até que em janeiro de 2025 há uma trégua após o cessar-fogo em Gaza.
Em março de 2025, com a quebra do acordo por Israel, o Ansar Allah volta a atacar Israel e a ameaçar a navegação pelo Mar Vermelho. Os americanos voltam a bombardear o Iêmen para conseguirem um acordo, que foi mediado por Omã e que estabeleceu que o Ansar Allah deixaria de atacar os americanos, embora pudesse atacar navios israelenses.
Israel volta a atacar o Iêmen e, em retaliação, em julho de 2025, o Ansar Allah afunda os cargueiros Magic Seas e o Eternity C.
Com o cessar-fogo em outubro de 2025 entre Hamas e Israel, o Ansar Allah interrompeu o ataque a Israel.
O assassinato de Ali Khamenei e o impacto no Iêmen
O assassinato do Líder Supremo iraniano em 28 de fevereiro de 2026 movimentou uma série de peças na situação do Oeste da Ásia.
Em primeiro lugar, a guerra de desgaste imposta pelo Irã aos EUA e a Israel criou uma crise de munições para a moderna artilharia, especialmente em relação aos mísseis usados na defesa antiaérea. Os drones de algumas centenas de dólares fabricados pelos iranianos foram diminuindo os estoques americanos a ponto de desabastecer os estoques de aliados na Europa e até na Coreia do Sul.
Em segundo lugar, a guerra de desgaste também foi acompanhada pela destruição de infraestrutura das bases militares que os norte-americanos mantêm na região, danificando equipamentos que monitoram, orientam e dão apoio logístico para as operações militares dos EUA e seus aliados.
O terceiro fator fundamental foi a crise no Estreito de Ormuz, que impactou os preços do petróleo, impedindo o livre escoamento do petróleo do Golfo, e tem pressionado os estoques mundiais, que, quando chegarem a níveis mais baixos, podem levar o aumento dos preços a uma situação crítica que provoque novas altas em ritmos qualitativamente maiores.
O desgaste que o Irã provocou nos EUA, em Israel e na Arábia Saudita tem reflexos imediatos na ampliação da capacidade do Ansar Allah de atacar os sauditas, e é nesse cenário favorável que as últimas ofensivas do Ansar Allah têm apavorado o Império.
Desde julho o Ansar Allah tem aproveitado a situação de fragilidade saudita para avançar sobre posições dos iemenitas colaboradores, e isso tem significado também uma retração saudita no território do Iêmen. A posição do Ansar Allah tem se tornado tão favorável que os EUA têm evitado atacá-lo e inclusive recusaram intervir diretamente em setembro, o que favoreceu um avanço para as áreas do litoral do Mar Vermelho, especialmente a cidade de Mocha e a ilha de Mayyun.

A fragilidade saudita
A guerra se intensificou com a Arábia Saudita enviando mais tropas e, desde o dia 6 de outubro, sofrendo ataques em sua infraestrutura, agora muito vulnerável por não contar com a proteção dos EUA. A monarquia ainda tem sérias debilidades na própria formação do seu exército.
As monarquias absolutistas da Ásia Ocidental, especialmente os sauditas, são governos montados pelas potências europeias na região que não possuem uma população nacional significativa que os apoie ou legitime.
O exército saudita é bem equipado, caro e moderno, porém é formado por mercenários estrangeiros e não possui uma capacidade de mobilização nacional de homens igual à de países como o Irã. Tem ao todo não mais de 200 [mil?] homens e a desconexão do monarca com a população é tão grande que as Forças Armadas (FFAA) são divididas no exército e em uma guarda pretoriana que serve para garantir fidelidade das FFAA ao monarca.
Como se não bastassem os problemas, a monarquia saudita ainda enfrenta o ataque ao oleoduto Leste-Oeste, que permite o escoamento da produção saudita do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho, cruzando toda a extensão do território desértico do país. Ao que tudo indica, o oleoduto foi danificado por organizações da resistência nacional iraquiana que atacaram a monarquia a partir do norte.
O desdobramento depende de quanto tempo a monarquia saudita consegue manter tropas no Iêmen sem a proteção dos EUA e de como os estoques mundiais de petróleo reagem à crise de Ormuz. Se esses dois fatores se agravarem ao mesmo tempo, o avanço sobre Mocha e o litoral do Mar Vermelho pode deixar de ser mais uma ofensiva e se transformar na saída saudita do Iêmen.
Leia também: “O Iêmen” e “O Estreito de Bab al-Mandeb”, as partes I e II desta série.
No Arapyau Vermelho: “A Doutrina Naval Iraniana” (https://arapyauvermelho.com/2026/03/08/a-doutrina-naval-iraniana/) e “23 de julho de 2026 – O maior funeral da História da Humanidade” (https://arapyauvermelho.com/2026/07/23/23-de-julho-de-2026-o-maior-funeral-da-historia-da-humanidade/).
Fontes
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