10 de outubro de 2026 – O Iêmen e Ansar Allah (Parte I)

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A partir de hoje postaremos uma série de 3 posts sobre o Iêmen e o Ansar Allah. Essa é a parte I

Diferentemente do que é propagado pela imprensa monopolista dos países europeus e dos EUA, o Iêmen não é uma nação pobre, de esparsas tribos que vivem no deserto e que agora saqueiam os navios dos “civilizadores” do mundo “ocidental”. Há muito mais.

Geografia e economia

O Iêmen possui uma área montanhosa que separa o oceano e o deserto típico da Península Arábica. Nessas montanhas, que passam de 3.600 metros, há uma série de microclimas que possibilitam uma agricultura mais variada em sistemas de terraço. Comparado com a maior parte desértica da Península Arábica, o Iêmen tem um clima mais favorável, e é em torno desta vantagem que se desenvolvem os mais de 40 milhões de habitantes do Iêmen.

No litoral oeste se encontra a região de Tihama, uma região mais quente, com pantanos e acesso ao Chifre Africano e aberta às influências do Mar Vermelho, com mercadores que atravessavam o Mar Vermelho e se conectavam às populações de onde hoje é a Eritreia, Djibuti, Etiópia e Somália.

No Iêmen se produzem frutas, uvas (especialmente), cereais, tâmaras, café, especiarias, incenso e mirra.

É do Iêmen que o café se espalhou pelo mundo árabe e a partir daí que chegará à Europa, exatamente pela conexão africana do Iêmen, através do Mar Vermelho, em que o Estreito de Bab al-Mandeb é a ligação mais próxima e o calcanhar de Aquiles da “economia mundial”, a passagem necessária entre o Índico e o Mar Mediterrâneo.

A difusão do café através do Iêmen foi tão importante que o termo Mocha, para variantes do café na Europa, vem do porto de Al-Mukha, porto iemenita associado ao café.

Reinos, religiões e resistência

O sul da Península Arábica, onde hoje é o Iêmen, já foi palco de muitos conflitos, reinos e religiões, tendo uma história rica e milenar.

Pela geografia acidentada e a diversidade, muitas regiões mantiveram autonomia frente a um governo central, e sempre foi a partir desses núcleos autossuficientes que a resistência se organizou.

A própria islamização do território sofreu resistência no século VII, bem como a expansão do Império Turco-Otomano e o imperialismo britânico. No Iêmen, especialmente nas montanhas ao norte e no interior, se desenvolveu uma corrente do xiismo com o nome de zaidismo, que tem interpretações particulares sobre a sucessão de Ali e a legitimidade do imã, um dos pontos da teologia xiita que os separa das correntes sunitas.

Essa corrente específica do xiismo, além de suas propostas religiosas, funcionou como uma identidade das populações do interior que resistiam aos domínios imperiais, como os otomanos e britânicos, que conseguiam exercer um controle maior sobre as cidades.

Do imamado à república

Em 1918 o imã Yahya, zaidita, assume o poder sobre o território que se tornaria a República Árabe do Iêmen, frente à fragmentação do Império Turco-Otomano após a Primeira Guerra Mundial. Aden continuou como um protetorado britânico, enquanto o norte montanhoso e Sana’a permaneceu como capital política e religiosa zaidita. Outras regiões, como Tihama, Hadramaut e o interior ao sul, permaneceram com graus diversos de independência e integração.

Com a emergência do nacionalismo secularizado pan-arabista de Gamal Abdel Nasser no Egito, surge uma força política nova e antimperialista, modernizante, republicana e com propostas de reformas socializantes.

O Iêmen surge após o Movimento dos Iemenitas Livres, em oposição ao imamado e ao colonialismo britânico no sul. Primeiro, em 1948, há uma tentativa fracassada de derrubar o imã Yahya, que é morto no golpe, mas seu filho, Ahmad bin Yahya, retoma o poder. Os discursos de Nasser chegavam ao Iêmen e o republicanismo pan-arabista ganhava popularidade. Em Aden, socialistas, comunistas e antimperialistas ganhavam mais espaço, formavam partidos e sindicatos.

Em setembro de 1962, o imã Ahmad morreu e seu filho, Muhammad al-Badr, assumiu. A legitimidade do novo imã foi muito menor, e os oficiais republicanos assumem o poder, declarando a República Árabe do Iêmen.

O Egito de Nasser intervém em apoio aos republicanos, enquanto a Arábia Saudita intervém em favor dos monarquistas. Entre 1962 e 1970 há uma guerra civil, vencida pelos republicanos, mas a Arábia Saudita continua exercendo influência no norte, especialmente promovendo o salafismo entre a população, algo visto como ameaça pelos zaiditas. Do ponto de vista político há uma oposição entre monarquistas x republicanos e do ponto de vista religioso, uma divisão entre zaiditas (xiitas) e salafistas (sunitas). Há muitas divisões e possibilidades no Islã, a simplificação da diversidade do Islã no binômio xiita e sunita é uma simplificação colonialista, porém é uma divisão importante, sendo o salafismo uma das correntes sunitas relacionadas a Arábia Saudita e extremamente conservadora.

Os dois Iêmens

Entre os anos 1960 e o ano de 1990 havia dois Estados iemenitas, um no sul, de caráter marxista-leninista, e outro ao norte, governado a partir de 1978 por Ali Abdullah Saleh.

O sul socialista, ou a República Democrática Popular do Iêmen, foi construído a partir de uma fração mais radical do republicanismo, que formou o Partido Socialista Iemenita, nos moldes leninistas, e incorporou as reformas sociais, como nacionalização de empresas e propriedades estrangeiras, além de uma revolução agrária, que reduziu o poder de sultões, xeques e grandes proprietários, organizando experiências muito ricas de propriedades coletivas.

Houve alfabetização em massa, ampliação dos serviços públicos de saúde e uma experiência revolucionária sobre a situação da mulher. O governo criou uma série de legislações que combatiam práticas tradicionais de poligamia, casamentos infantis, proibição do divórcio e desigualdade jurídica. Houve expansão do acesso feminino à administração pública, educação, trabalho e à política.

O Estado foi secularizado e tinha aproximação com a URSS.

Com o fim da URSS, na verdade um pouco antes, o processo revolucionário não conseguiu resistir à crise do socialismo. Em 1986 o Estado socialista sul-iemenita viveu uma disputa interna que logo se desdobrou em guerra civil, e em 1990 o Iêmen do Sul e o do Norte foram unificados, sob o presidente Ali Abdullah Saleh, do norte, e Ali Salem al-Beidh, do sul, se tornou vice. A unificação deu a sensação de que o sul havia sido incorporado e em 1994, novamente, forças herdeiras do sul tentaram se separar. Saleh venceu, e o norte passou a exercer ainda mais domínio sobre o Sul.

A crise do pan-arabismo e o nascimento do Ansar Allah

A crise da URSS e do socialismo foi também uma crise do pan-arabismo secular. Uma década antes, o Irã viveu uma revolução antimperialista em 1979 que acabou com a monarquia títere dos americanos, dirigida por Mohammad Reza Pahlavi, inaugurando uma república. Mas, diferentemente das repúblicas populares de inspiração comunista, e mesmo das repúblicas árabes modernizantes que vieram na onda do nasserismo, a Revolução Iraniana procurou construir um novo tipo de Estado que, mesmo republicano, mantivesse um tipo de controle religioso e da moral tradicional ainda maior e mais central do que qualquer experiência pan-arabista anterior.

Nos moldes até então estabelecidos, os Estados nacionais surgidos desde as revoluções burguesas europeias, especialmente na Inglaterra e na França, possuíam uma tendência à modernização laica, republicana e de garantias aos direitos individuais, que sob muitos aspectos entrava em choque direto com os costumes tradicionais e a religião.

O modelo surgido da Revolução Iraniana procurava construir um sistema em torno do Líder Supremo que salvaguardasse a tradição xiita e os costumes morais e religiosos.

Na década de 1980 há um ressurgimento zaidita em torno da cidade de Saada. Na década seguinte, se desenvolve um movimento em torno da família Al-Houthi que pretendia educar os jovens no zaidismo, reagir ao salafismo saudita e fortalecer a identidade regional e, como desdobramento, nasce o “Movimento dos Jovens Crentes”, em árabe Al-Shabab al-Mu’min.

Hussein al-Houthi se torna o grande líder. O zaidismo continua crescendo e os jovens crentes ganham maior protagonismo político.

Com a invasão do Iraque em 2003 há uma recomposição de forças no Oeste da Ásia, com uma crise final do pan-arabismo secular e a emergência do antimperialismo relacionado a forças religiosas, que assumem a luta armada.

No caso iemenita, Hussein al-Houthi, a partir de 2003, passou a defender posições mais antimperialistas e contra o sionismo, acusando o governo de Saleh de permitir a influência estrangeira. Em 2004 o governo tentou prendê-lo e logo acabaria assassinando-o em setembro.

Com isso, e a partir da liderança de Abdulmalik al-Houthi, teria início um processo de enfrentamento armado entre o governo iemenita e o movimento que ficaria conhecido como Ansar Allah.

Continua em “O Estreito de Bab al-Mandeb” e “A ofensiva atual do Ansar Allah e o impasse estratégico das potências militares”.

Fontes

Fontes não ocidentais

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Fontes ocidentais

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