Desde 4 de novembro de 1979, com a chamada crise de reféns na Embaixada dos EUA em Teerã — quando diplomatas foram mantidos como reféns —, houve uma série de ações hostis dos EUA contra o Irã. Na década de 1980, a guerra entre Iraque e Irã, que durou mais de 8 anos, teve os EUA como aliados do lado iraquiano. O governo de Saddam Hussein, que depois de 2003 seria invadido e o líder, aliado outrora, enforcado.
Até os anos 2010, o Irã sofreria atentados e diversos ataques atribuídos a grupos insurgentes — como o MEK (Mujahedin-e Khalq) —, curdos e israelenses.
Em 2003, com a invasão do Iraque e um crescente discurso islamofóbico no mundo ocidental, o Irã conseguiu se rearticular no mundo árabe, especialmente no seu entorno. O ponto inicial é o resultado da invasão do Iraque, que enfraquece o Baathismo — especialmente os sunitas no Iraque —, abrindo um vácuo na necessária resistência nacional iraquiana. Embora os EUA, ou os seus estrategistas mais lúcidos, calculassem a resistência, isso na prática é sempre subestimado. Uma invasão como a de 2003 imporia aos atores políticos iraquianos um dilema muito estreito entre capitulação e resistência. O enfraquecimento do Baathismo e dos mais seculares pan-arabistas — antipodas aliados ou mais próximos da URSS no período da Guerra Fria — iria abrir espaço para a outra força nacional anti-imperialista que emergiu no Irã em 1979: o islamismo nacionalista de origem xiita.
Embora a divisão entre xiitas e sunitas não seja tão intensa no contexto de uma invasão imperialista, como ocorreu no Iraque, os próprios EUA procuraram fortalecer os xiitas, já que Saddam teria uma relação mais estreita com os sunitas. A aliança com lideranças xiitas foi apresentada na mídia ocidental como uma das mais inteligentes estratégias norte-americanas — no mais típico “dividir para dominar”.
Mas, por outro lado, o fortalecimento xiita no governo fantoche pós-invasão criou uma possibilidade de reaproximação entre Irã e Iraque, substituindo outros centros políticos do pan-arabismo por uma influência crescente do Irã.
Desde a época de Saddam Hussein, grupos xiitas já viviam em exílio no Irã. Muitos deles retornaram ao Iraque e partidos como o Dawa e o Conselho Supremo Islâmico assumiram protagonismo. O Irã passa a ter uma importante influência em Bagdá.
Grupos xiitas, como o Exército Mahdi (Jaysh al Mahdi), passaram a defender a soberania iraquiana e a atacar as forças da invasão e seus aliados, durante a chamada guerra civil entre 2006 e 2008. O Exército Mahdi se desfaz e se incorpora ao Estado iraquiano como Saraya al Salam, as Brigadas da Paz.
Esse é um dos grupos que faz parte do xiismo no Iraque — o movimento sadrista (por referência a Muqtada al Sadr) — que influencia o Estado iraquiano atual, mas também as organizações armadas da resistência iraquiana.
Em 2011, os EUA se retiraram formalmente do Iraque, mantendo algumas bases militares. Em 2014, o ISIS avança na Síria e no Iraque. O Irã, mas também a Rússia, apoiaram diversas organizações armadas contra o avanço do ISIS, aumentando a força política e militar de milícias no território iraquiano. A situação do Iraque, depois de mais de 10 anos de ocupação, é o contrário do planejado em 2003. A instabilidade é a regra. Os EUA sofreram diversos revezes, tanto no Afeganistão quanto na região árabe.
As mudanças de governo no Egito e na Líbia não criaram uma situação de estabilidade favorável aos EUA — apenas fragmentaram resistências e forças mais hostis, sem gerar um quadro favorável.
Em meio à instabilidade e ao recuo das antigas lideranças do pan-arabismo e do discurso anti-imperialista, há o considerável avanço político do Irã na região como foco de uma resistência anti-imperialista.
Nesse sentido, aliado da intervenção russa na guerra da Síria e organizado no contexto da resistência contra o ISIS, diversas organizações orbitam sob a influência do Irã.
O mais importante e o primeiro modelo dessa influência é o Hezbollah — a principal organização da resistência libanesa, xiita, mas principalmente consequente na luta contra a invasão israelense. O Hezbollah, que significa Partido de Deus, foi fundado em 1982 durante a invasão israelense do Líbano, apoiado diretamente pela IRGC. Em 1985 lança um manifesto político defendendo a resistência armada contra Israel e o alinhamento com a Revolução Islâmica iraniana.
De 1992 até 2000, conduziu uma guerra de desgaste contra tropas de Israel e o Exército do Sul do Líbano. O SLA, na sigla em inglês, era uma milícia financiada por Israel para manter o território e combater o Hezbollah no sul do Líbano. Em 2006, no conflito conhecido como Guerra do Líbano — em que houve bombardeios israelenses no Líbano após a captura de soldados israelenses —, foi o Hezbollah que ofereceu a principal resistência a Israel, com o lançamento de milhares de foguetes. Com isso, e com um amplo trabalho de assistência social baseado no princípio religioso islâmico, o Hezbollah foi se tornando o guardião nacional do Líbano, a força política e militar mais importante do país, ocupando cadeiras no Parlamento libanês desde 1992.
O fim da URSS enfraqueceu muito as organizações políticas nacionalistas pan-arabistas ou de países islâmicos com maioria muçulmana que tiveram movimentos políticos nacionalistas no oeste da Ásia e norte da África, como: a FLN da Argélia, o Nasserismo no Egito, Kadafi na Líbia, o Kemalismo na Turquia e os socialismos do Iêmen.
A Revolução Iraniana inicia um outro momento na região, e um em que os governos seculares vão saindo. Os EUA e Israel intervieram no conflito, estimularam cisões e procuraram enfraquecer, principalmente, os movimentos seculares — geralmente mais hostis — buscando alternativas rebeldes que não tivessem nenhum vínculo com os soviéticos, como os Mujahidins afegãos. Em 1979, não apenas o Irã assumia um governo de orientação islâmica, como a URSS invadia o como a URSS invadia o Afeganistão, e depois de 10 anos de guerra saía deixando o Taliban.
Com o ano 1990, os socialismos do Sul do Iêmen são absorvidos, o projeto socialista argelino vai desaparecendo e sendo questionado. A FLN perde o seu ímpeto revolucionário da década de 1960-70. Entre 1980 e 1990 há a guerra entre Irã e Iraque, e depois a Guerra do Golfo — que seria apenas um ensaio para a invasão do Iraque governado pelo Baath iraquiano, o partido do nacionalismo pan-árabe fundado na Síria na década de 1960. A partir da década de 2010, caem os governos do Egito (Hosni Mubarak), da Tunísia e de Kadafi na Líbia.
A intenção das potências europeias e principalmente de Israel e dos EUA sempre foi a de substituir governos seculares e nacionalismos por colaboradores do tipo de Reza Pahlavi — que teria governado o Irã como um protetorado entre o golpe contra o nacionalista Mohammad Mossadegh em 1953 e a Revolução Islâmica. O problema é que nem sempre os EUA conseguiram impor seus fantoches, e mesmo impondo, há sempre o risco de uma revolução colocar um governo ainda mais hostil, como ocorreu no Irã — ou o que aconteceu no Afeganistão, em que um aliado é obrigado a escolher entre a colaboração com os EUA e a mínima execução de medidas nacionais que garantam legitimidade ao seu poder dentro de seus próprios países. E como o interesse dos EUA é sempre o controle do petróleo ou questões relativas à política colonialista de Israel, é muito evidente quais medidas são nacionalistas e quais são políticas de interesse colonialista.
Toda a história dos últimos 70 anos no Oeste da Ásia e Norte da África foi de movimentos nacionais buscando a independência do jugo colonial e a soberania sobre seus recursos naturais, e de intervenções de potências imperialistas manipulando, conspirando e intervindo diretamente para que os ideais e as posições nacionais não prevaleçam.
É a partir dos anos 2000 que se consolida a transição dos movimentos e governos nacionalistas para a resistência anti-imperialista a partir de uma unidade islâmica. E nesse sentido, Israel, potências europeias e também a Rússia de Putin, e os EUA procuram divisões e intrigas para derrotar os projetos nacionais. O último governo a cair de antiga tradição secular foi o governo de Assad na Síria, dando lugar a um governo religioso, fragmentado, de origem entre combatentes do chamado Estado Islâmico, que no momento ainda se mantém comportado e submisso por dinâmica dos EUA.
O modelo de governo ideal para os EUA ainda é o da Arábia Saudita — uma monarquia conservadora e absolutista, alinhada aos interesses norte-americanos e que se mantém estável, muito próxima aos governos da Jordânia, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes, Omã e Bahrein.
Desde a invasão do Iraque em 2003, o Irã tem se tornado o líder regional de uma política nacional não-alinhada aos EUA. É a partir dessa posição que outros movimentos se somaram ao que depois ficaria conhecido como o Eixo da Resistência:
1º Irã (1979); 2º Hezbollah (1982); 3º Hamas, que teve origem na Irmandade Muçulmana e em 2007 assumiu o governo em Gaza, expulsando o Fatah após vitória eleitoral; 4º Ansar Allá (Partido de Deus) ou Houthis, que controlam grande parte do Iêmen, fortalecidos desde a guerra do Iraque; 5º Organizações armadas da Resistência Nacional Iraquiana, derivadas de movimentos xiitas, mas também de organizações surgidas do colapso do exército iraquiano, dissolvido em milícias de guerrilha — Kataib Hezbollah, As’aib Ahl al-Haq, Al-Haq, Badr e outras.
Essas organizações de resistência anti-imperialista são chamadas de proxies do Irã e geralmente denominadas como organizações terroristas — porém têm conseguido manter ativos os ataques contra bases militares norte-americanas no Oeste da Ásia e frear o ímpeto colonialista israelense-norte-americano na região.