Qual a possibilidade de um ataque nuclear contra o Irã?

Bomba atômica

Considerando que o sionismo tem como princípio militar a escalada para forçar o inimigo a recuar, e que Trump apenas consegue raciocinar em termos de escaladas estratosféricas, repentinas e de impacto psicológico, há que se supor que, com as derrotas militares e o xeque iraniano, os israelenses e norte-americanos possam usar uma arma nuclear para uma “última” escalada que ponha fim ao desafio xiita.

Israel tem como doutrina militar as guerras rápidas e fora de seu território, já que tem uma população pequena e pouca profundidade territorial. A desproporcionalidade da dissuasão e a escalada de grandes efeitos psicológicos são parte do universo sionista. A falta de regras, o desrespeito às leis internacionais e a agressividade são marcas das ações de Israel. Isso faz parte de sua estratégia.

Uma de suas promessas dissuasivas — que incluem a ameaça nuclear — é a chamada escalada final nuclear. Que, no caso de Israel, tem o nome de Sansão, o herói mitológico que, capturado pelo inimigo e já sem forças, teria recebido últimas e poderosas energias para destruir o seu cativeiro, matando seus inimigos e a si próprio. A arma nuclear seria a última cartada, mesmo que significasse o final não apenas do inimigo, mas também de Israel.

Essa seria a escalada final em um conflito, a arma que tem custos éticos e humanitários, mas que serviria para garantir a rendição de um inimigo disposto, como os xiitas.

Os EUA teriam feito isso com o Japão e seus irredutíveis kamikazes. Essa é, ao menos, a história que eles contam para si.

Está também claro que parte do plano de escalar com a bomba nuclear estaria em curso. Já que a ameaça, o “brandir sabres” (sabre-rattling), está em curso. Muitos “analistas”, vídeos no YouTube e na mídia corporativa insinuam essa possibilidade.

Mas há um problema nessa ideia:

1º – O Japão não assinou o armistício por causa das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

O Japão estava derrotado militarmente e discutia os termos da rendição. Quando, em 26 de julho de 1945, os Aliados lançaram um ultimato exigindo a rendição incondicional (a Declaração de Potsdam), a negociação era através da URSS, e os termos estavam relacionados à manutenção ou não do imperador. A URSS declarou guerra ao Japão e invadiu a Manchúria em agosto de 1945. Com a abertura de outra frente e as garantias de que o imperador seria mantido, o Japão já preparava a rendição.

Mas, antes que pudesse se render, os norte-americanos lançaram suas bombas, criando o mais terrível espetáculo da guerra. Em 15 de agosto, o imperador Hirohito anunciou a rendição. Havia muitos generais que queriam continuar a guerra e até tentaram um golpe.

A guerra acabou porque o Japão já havia perdido e tentava apenas reduzir danos e perdas na negociação. A bomba atômica não é um dissuasor absoluto. Para guerreiros imersos em uma resistência muito profunda e desafiadora, a morte ao longo de guerras sangrentas — morrer por granada, fuzil, bombardeio ou pelo calor de uma arma nuclear — não faz diferença. Entregar o governo xiita aos americanos para transformá-lo em uma colônia é o fim. Para um país de milhares de anos, a rendição equivale a uma bomba atômica sobre Teerã.

Por outro lado, usar uma arma nuclear significa duas coisas no contexto internacional:

  • isolar o agressor nuclear;
  • estimular o desenvolvimento de armas nucleares por países que não as têm.

Desde que os EUA usaram a bomba em 1945, todas as potências foram atrás das suas: a URSS, em 1949; Reino Unido, em 1952; França, em 1960; China, em 1964; Índia, em 1974; Paquistão, em 1998. O último país até agora, a Coreia do Norte, fez o seu primeiro teste em 2006. Qualquer país que deseje soberania e tenha capacidade de se impor vai construir um arsenal atômico.

Também há o isolamento. Muita gente entende isolamento como uma arma diplomática, um “ficar de mal”, uma dificuldade de interagir no mundo, nas relações internacionais. Mas é mais que isso. Significa também um isolamento militar. Com uma ameaça nuclear, todos necessariamente precisam levar em conta a possibilidade de serem um alvo, e o isolamento significa que o país isolado passa a ser considerado como possível ameaça na doutrina nacional de defesa dos outros. Os EUA, por muito menos, teve negativas da Espanha e de varios outros paises sobre a possibilidade de usar bases e espaço aereo. Isolamento dificulta operações reais.

Os europeus, por exemplo, não veem os EUA como uma possível ameaça. Não têm desenvolvido esforços para se prepararem contra uma ameaça norte-americana. Ou, ao menos, esse não é o centro de sua doutrina militar.

Qual seria o resultado de um ataque nuclear dos EUA e Israel nas relações internacionais? Os EUA, por mais questionados que possam estar sendo, ainda são os hegemônicos e os maiores beneficiados da ordem como está. Um movimento tão radical e extremo no cenário internacional, ao contrário de garantir a manutenção da ordem atual, significará uma mudança e, nessa nova ordem, possivelmente os EUA não seriam os principais beneficiados.

O uso e a ameaça — mesmo a ameaça mais incipiente do uso — também podem estimular outros países a terem suas próprias armas nucleares.

2º há que se considerar a possibilidade de o Irã já ter ou poder ter rapidamente uma arma nuclear.

Muitos citam a fatwa de Khamenei, que proíbe o uso de arma nuclear, mas há controvérsias sobre se essas declarações são garantias reais. Não existe uma posição definida. É possivel que o Irã tenha tudo disponível e possa conseguir produzir uma arma em muito pouco tempo.

Por outro lado, uma fatwa não é irreversível. O Irã pode estabelecer o mesmo que Israel, deixando no ar uma ambiguidade nuclear para que sirva como dissuasão — ou seja, ter ou poder já ter, em poucos dias, uma arma nuclear.

Na doutrina política do sistema Velayat-e Faqih (governo do jurista) há a ideia do “interesse do Estado” — a maslahat. Essa ideia foi desenvolvida por Ruhollah Khomeini e visava garantir a existência do Estado. Em circunstâncias de ameaça existencial, as fatwas poderiam ser revistas.

Isso significa que, de fato, não se pode garantir que uma ameaça não será respondida com outro ataque nuclear do Irã. Afora que há sempre a possibilidade de um terceiro (quarto, na verdade) país entrar na batalha, e esse cenário nuclear entra em uma área absurdamente imprevisível.

Em resumo: não há ameaça real de ataque nuclear. A ameaça é uma das formas de escalar e tentar intimidar. Porém, enquanto existirem armas nucleares e imperialismos, as coisas podem descambar para situações imprevisíveis. Ainda estamos longe disso, ao que tudo indica.