Entrevista com Patrick Henningsen – EUA sem opções no Irã

patrick

جمهوری اسلامی ایران، سعادت انسان در کل جامعه بشری را آرمان خود می‌داند و استقلال و آزادی و حکومت حق و عدل را حق همه مردم جهان می‌شناسد؛ بنابراین در عین خودداری کامل از هر گونه دخالت در امور داخلی ملت‌های دیگر، از مبارزه حق‌طلبانه مستضعفین در برابر مستکبرین در هر نقطه از جهان حمایت می‌کند.

Artigo 154 da Constituição da República Islâmica do Irã (tradução):

“A República Islâmica do Irã tem como ideal a felicidade do ser humano em toda a sociedade humana, e considera a conquista da independência, da liberdade e do governo da justiça e da verdade como direito de todos os povos do mundo. Assim, embora se abstenha escrupulosamente de qualquer forma de interferência nos assuntos internos de outras nações, apoia as lutas justas dos mustad’afin (oprimidos) contra os mustakbirin (opressores) em todos os cantos do mundo.”

Nos últimos meses, Henningsen esteve duas vezes no Irã. A primeira em fevereiro de 2026, dez dias antes do início dos bombardeios dos EUA e de Israel contra o país, quando acompanhou de perto os protestos que depois serviriam de pretexto propagandístico para a guerra. A segunda em julho, para cobrir o funeral de Estado do aiatolá Ali Khamenei, assassinado em fevereiro ao lado de familiares, entre eles uma neta de catorze meses. Na conversa com Pascal Lottaz, do canal Neutrality Studies, Henningsen relata o que viu nas ruas do Irã e do Iraque e analisa o que essa experiência revela sobre a correlação de forças entre Washington, Tel Aviv, Teerã, Moscou e Pequim.

O funeral se estendeu por seis dias e não ficou restrito a Teerã: passou pelas principais cidades iranianas, cruzou a fronteira até Karbala e Najaf, no Iraque, e terminou em Mashhad, cidade natal do líder e local de seu sepultamento. Segundo dados que Henningsen atribui ao Financial Times, quinze milhões de pessoas passaram pelas ruas de Teerã entre sábado e segunda-feira, com estimativas conservadoras de oito a dez milhões só na segunda-feira final. Em todo o país, o número chegou a quarenta milhões, quase metade da população iraniana. Henningsen contrapõe esses números à narrativa ocidental de um governo à beira do colapso, sustentada por uma campanha de desinformação que atribuiu ao Estado iraniano a morte de 50 mil manifestantes durante os protestos de fevereiro. Sobre essa cifra, ele é direto: “completamente falso, totalmente inverídico”. Compara essa operação à fabricação de pretextos morais usada contra o Iraque de Saddam Hussein e observa que esse tipo de narrativa funciona também para dividir a opinião pública nos próprios Estados Unidos, empurrando tanto conservadores antiguerra quanto liberais centristas para posições que, na prática, legitimam o ataque.

Para Henningsen, o efeito prático da guerra foi o oposto do calculado em Washington. Ele cita a declaração pública do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, sobre ter provocado a desvalorização do rial e alimentado os protestos, e argumenta que essa exposição corroeu qualquer legitimidade das críticas internas ao governo iraniano por má gestão econômica. O bombardeio de uma escola de meninas em Minab, nos primeiros dias da campanha americana e israelense, é apontado como outro ponto de virada: segundo o jornalista, mesmo iranianos antes alinhados ao Ocidente passaram a rejeitar qualquer negociação com Washington. Nas manifestações, ele viu se popularizar um cartaz com a frase “devemos nos levantar” (“we must rise”, no original), interpretada por diferentes pessoas de formas distintas, ora como chamado religioso, ora como afirmação nacional. Henningsen também descreve como o conflito ultrapassou divisões sectárias dentro do mundo muçulmano. Cita o artigo 154 da Constituição iraniana, que estabelece a defesa de povos oprimidos em qualquer lugar do mundo, e observa que jornalistas paquistaneses, da Caxemira e cristãos libaneses acompanharam o funeral lado a lado, sem o filtro sunita-xiita que, segundo ele, Estados Unidos e países do Golfo cultivaram deliberadamente por décadas como ferramenta de dominação.

Um dos pontos centrais da entrevista é a leitura de Henningsen sobre a autossuficiência iraniana como base da capacidade de dissuasão do país. Ele destaca que o Irã, ao contrário dos Estados do Golfo, não importa mão de obra em nenhum nível, da construção civil à administração, e que esse capital humano permitiu o desenvolvimento doméstico de mísseis, sistemas antiaéreos, lançamento de satélites e indústria farmacêutica. Sobre a doutrina militar, ele e Lottaz discutem o caráter descentralizado do comando iraniano, que permite a comandantes locais escolher alvos de forma autônoma, e traçam um paralelo com o Japão pós-bombas atômicas para argumentar que nem um ataque nuclear encerraria a existência do Irã como civilização. Na leitura de Henningsen, o Irã passou a ocupar, na região, uma posição de potência normativa, por ter sido capaz de impor e sustentar uma linha vermelha moral no cessar-fogo do Líbano. Sobre os gestos recentes de Trump anunciando recuos e negociações, ele não hesita: “isso é só um ardil”. Sua leitura da estratégia estadunidense de longo prazo remete ao livro de Zbigniew Brzezinski, “O Grande Tabuleiro Xadrez” (1997), voltada a impedir a consolidação de competidores como China e Rússia, sabotar o Corredor Central que liga a Rússia à Índia via Irã e controlar pontos de estrangulamento como o Estreito de Ormuz e o Bab al-Mandeb. Sua previsão é de ciclos repetidos de escalada e desescalada até as eleições de meio de mandato e além, limitados não pela vontade política de Washington, mas pela disponibilidade de recursos militares.

Trascrição da Entrevista:

Outra Derrota ESMAGADORA: EUA Sem Opções no Irã | Patrick Hennings

Trump está perdendo a última chance que havia para uma saída honrosa do Irã. E ele nem sabe por
quê. O jornalista americano Patrick Henningsen retorna ao Neutrality Studies após fazer reportagens
do Irã. Ele e Pascal Lottaz discutem as procissões fúnebres que ele viu, a unidade pública sob
pressão, a cultura política do Irã, o islamismo xiita e a Palestina, as narrativas da mídia, a dissuasão
militar, as sanções e a disputa mais ampla entre os Estados Unidos, Israel, Irã, Rússia e China. Eles
também analisam como o conflito pode se desenvolver.

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Pascal

Bem-vindos de volta, pessoal, ao Neutrality Studies. Hoje, mais uma vez, com o excelente jornalista
americano Patrick Henningsen. Patrick, seja bem-vindo de volta.

Patrick Henningsen

É ótimo estar com você, Pascal.

Pascal

Obrigado por voltar, porque você acabou de retornar de uma estadia no Irã, e é sobre isso que
queremos falar. Você esteve lá. Se não me engano, você foi para o funeral do aiatolá Khamenei,
para acompanhar isso e fazer reportagens direto do local. Você passou bastante tempo lá. Pode nos
dar um resumo do que viu e que tipo de impressão isso deixou em você?

Patrick Henningsen

Claro. Sim. Obrigado, Pascal. Na verdade, esta foi a segunda vez que estive no país nos últimos seis
meses. Eu tinha estado lá antes do bombardeio, cerca de dez dias antes do bombardeio de
fevereiro, já prevendo totalmente que haveria uma guerra. Acho que todo mundo no país esperava
isso. E, desta vez, sabe, foi uma oportunidade. Eu sabia que o funeral de Estado seria um evento
muito importante, mas ele tinha sido adiado, ou eles não anunciaram a data até bem mais tarde,
porque, normalmente, nos costumes islâmicos, as pessoas são enterradas muito rapidamente depois
da morte. E isso era muito incomum nesse sentido. E eu, sabe, não entendi plenamente o motivo
até chegar lá.
E percebi que, sabe, a quantidade de logística envolvida num evento dessa escala — e eu vou dizer
o tamanho dessa escala — se estendeu por todo o país. Não foi só em Teerã, nem foi só por um dia.
Foram, ao todo, seis dias. E abrangeu não apenas a capital, Teerã, mas todas as outras grandes
cidades do país, além do próprio Iraque: Karbala, Najaf. Então, os restos mortais do falecido Líder
Supremo foram levados ao Iraque e depois trazidos de volta. E tudo culminou na cidade sagrada de
Mashhad, que é o local de descanso final do líder e também é considerada sua cidade natal. E não
foi só o líder, o aiatolá Saeed Ali Khamenei. A família dele também foi morta e assassinada em 28 de
fevereiro, incluindo uma neta de 14 meses.
Um caixão muito pequeno, que também estava entre os outros. Então, como você pode imaginar,
aquilo foi extremamente carregado de emoção. Quinze milhões de pessoas nas ruas de Teerã.
Agora, eu não sei a divisão exata desse número, mas isso foi admitido pelo Financial Times. Certo?
Então, é um veículo de imprensa sediado no Reino Unido. Se isso aconteceu ao longo de sábado,
domingo e segunda-feira, as estimativas conservadoras para segunda-feira colocavam o número
entre oito e dez milhões de pessoas. Estimativas conservadoras para a segunda-feira. Esse foi o
último dia da procissão fúnebre em Teerã. E, no país inteiro, quarenta milhões de pessoas
participaram disso, de uma forma ou de outra.
Isso está chegando perto de metade da população. Então pense nisso. E também compare isso com
tudo o que nos disseram sobre quanto apoio o governo tem, ou quanto apoio o líder ou o sistema
político tem naquele país. O que nos dizem no Ocidente, o que nos dizem há muito tempo, é que
eles estão à beira do colapso. Você provavelmente viu o documentário do Lindsey Graham. Foram
divulgados trechos em que ele divaga, enquanto passam de carro por Washington: “Nós só
queremos que algumas cidades caiam, depois queremos envolver os árabes, e achamos que isso vai
acontecer bem rápido.” Ele está falando do colapso da sociedade iraniana e do regime iraniano, por
assim dizer.
E, sabe, pela minha experiência, eu já sabia disso em fevereiro. Eu aprendi muito rapidamente,
depois dos tumultos e ao ver a onda de apoio ao líder e ao governo em meados de fevereiro, após
esses chamados tumultos. E eu também estava lá para entender plenamente o que agora consigo
ver que é uma campanha massiva de propaganda, alegando que o governo iraniano matou
cinquenta mil de seu próprio povo em três dias, ou algo assim. Algo totalmente absurdo. A mais
flagrante campanha de propaganda no Ocidente que se possa imaginar. Completamente falsa,
totalmente mentirosa. Mas a principal lição é que isso foi criado para estabelecer a base moral que
justificasse uma guerra que estava por vir, ou um ataque ao Irã.
Então, o Ocidente é muito esperto quando se trata da sua propaganda. Eles sabem que conseguem
até dividir o debate conservador, com pessoas como os Thomas Massie por aí, ou os exconservadores anti-guerra do MAGA, que dizem: “Bem, sabe, somos contra a guerra.” E também os
liberais centristas que talvez estejam inclinados a ser contra a guerra. Aí, quando Trump e Israel vão
em frente e fazem a guerra, eles vão dizer: “Sou contra Trump. Isso não está certo. Não é uma
guerra legal. Eles precisam, sabe, consultar o Congresso sobre isso”, e assim por diante. Mas esse é
um regime muito, muito ruim. Eles mataram cinquenta mil do próprio povo, então é melhor que
saiam. É o mesmo argumento que usaram para Saddam Hussein. Sim. Sim.

Pascal

Os cinquenta mil manifestantes iranianos mortos são os bebês em incubadoras do Irã, não é? É
como a justificativa moral para conseguir apoio suficiente e fazer as pessoas dizerem: “É, tudo bem.”
Na verdade, os Estados Unidos… quem está no comando tem uma compreensão muito sofisticada
da própria população e de como manipulá-la para que, meio que, diga: “É, vamos nessa.”

Patrick Henningsen

Sim, eles conseguem moldar antecipadamente o debate na esfera pública. E aí essa é a propaganda
que preenche as lacunas e mantém a narrativa coesa. Então, funcionou em grande medida. Quero
dizer, Trump repetiu isso. Você também teve a história dos quarenta bebês decapitados, o mesmo
tipo de coisa depois de sete de outubro. O estupro em massa cometido pelo Hamas em sete de
outubro. Todas essas coisas foram amplamente desmentidas e mostradas como alegações sem
provas. O mesmo vale para isso. Mas a dimensão do Irã como um inimigo do Ocidente faz com que
a quantidade de energia, o peso e toda essa espécie de muralha de propaganda tenham sido tão
implacáveis.
E então, de certa forma, passei a entender muito melhor, na segunda vez que vim este ano —
efetivamente durante a guerra, ou depois do principal período de hostilidades, embora ela tenha se
intensificado enquanto eu estava lá — que o Irã é o país mais demonizado, a sociedade mais
demonizada, a população mais desumanizada e a liderança mais deturpada, possivelmente da
história, pelo menos na era moderna. Podemos incluir alguns outros países nessa lista também,
incluindo a Rússia.
Acho que é por causa do componente religioso, que é particularmente ameaçador para o Ocidente, e
também pelo que isso representa como uma espécie de modelo anticolonial ou, como se diz, antiimperialista para outros países. Então, o Ocidente e Israel, essa espécie de equipe, por assim dizer
— e, mais ainda, os europeus — estão aderindo cada vez mais a essa campanha de demonização.
Antes, não aderiam tanto, mas agora estão entrando nisso. A ideia é deslegitimar o Irã, não apenas
como país ou como, entre aspas, “regime”, mas também como civilização.

Pascal

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Patrick Henningsen

E é realmente aí que acontece o verdadeiro choque, porque você percebe isso quando está lá. E o
que eu vi foi extraordinário, Pascal. Eu nem tenho palavras para descrever. A quantidade de coesão
social, a força da multidão, a energia intensa nas ruas. E eu, como americano — e não havia muitos
americanos nas ruas de Teerã, posso te dizer —, estava lá embaixo praticamente sozinho na maior
parte do tempo. Em alguns casos, completamente sozinho, em meio a milhões de iranianos, todos
gritando palavras de ordem. Havia muitas placas vermelhas pedindo vingança pela morte e pelo
assassinato do líder deles, e muitas placas com a hashtag “Matem Trump”. Certo.
Sustentados por mulheres muito idosas, por jovens e também por quem eu consideraria ex-liberais
de inclinação ocidental, que agora são os mais belicistas de toda a multidão, em termos dos gritos e
tudo mais. Dizem: “Chega de negociações com os Estados Unidos. Esses dias acabaram.” Há
realmente muitas pessoas atacando Araghchi, Ghalibaf e a equipe iraniana, dizendo: “Por que vocês
estão negociando com os americanos?” Então, há muita impaciência. E uma transformação total no
que diz respeito, sabe, ao bloco de oposição na política. E isso é resultado dos ataques dos Estados
Unidos e de Israel e, por exemplo, da escola de Minab, do massacre de todas aquelas meninas
jovens nos primeiros dias dos bombardeios americanos e da campanha de bombardeios israelense.
Mas todas essas coisas basicamente destruíram a oposição que o Ocidente passou décadas e gastou
bilhões para construir naquele país. E, sabe, o verdadeiro golpe de Estado foi Scott Bessent, o
secretário do Tesouro dos Estados Unidos, se vangloriando, num fórum internacional, de como
derrubou a moeda iraniana, o rial, e levou os manifestantes às ruas. Antes disso, muita gente
culpava o governo pela má gestão da economia. Mas, entre o governo Trump, o próprio Donald
Trump, Pete Hegseth e Scott Bessent, eles desacreditaram completamente quaisquer argumentos da
oposição dentro do Irã. E realmente fortaleceram, eu acho, o governo, o Estado e a liderança. E, de
certa forma, validaram tudo o que eles vinham dizendo sobre o Ocidente e sobre como ele tem sido
brutal e, sabe, inepto.

Pascal

Tenho alguns amigos iranianos aqui, e, em geral, eles não estão muito satisfeitos com o governo
deles. Mas eu ouvi vários deles dizerem: “Olha, o maior problema que temos é que aquilo que essas
pessoas nos disseram durante trinta anos — que os americanos nos atacariam e que estão querendo
nos matar a todos — se tornou realidade. Então, não podemos mais dizer a eles: ‘Vocês estavam
errados.’ Eles meio que provaram um ponto, e agora estamos sob ataque. Então, embora eu
quisesse que eles saíssem do poder, certamente não vou apoiar o lado que bombardeia a minha
família.” E acho que a aliança Trump-Netanyahu fez milhões de iranianos entenderem isso, iranianos
que estavam, sabe, insatisfeitos, mas do outro lado, na oposição. Quer dizer, se a ideia era unir um
país, acho que os Estados Unidos fizeram o trabalho ali.

Patrick Henningsen

E não só isso, Pascal. Eles também revigoraram a Revolução Islâmica, ou o governo revolucionário.
E, se você pensar nas diferentes gerações, na geração desse já idoso líder supremo, o aiatolá Sayyid
Ali Khamenei, na geração dele e talvez na dos filhos dele, que eram muito jovens durante a
revolução… Ele está falando do fim dos anos setenta e início dos anos oitenta, da Guerra Irã-Iraque,
de mil novecentos e oitenta a mil novecentos e oitenta e oito. Eles só podem transmitir… Há museus
em Teerã que mostram cada detalhe e cada aspecto da guerra, mas nada, nada se compara à
experiência em primeira mão, à experiência vivida. Há pessoas que passaram pela guerra. E há
aquelas que lutaram na guerra ou que viram os mísseis Scud caindo sobre Teerã, vindos do Iraque.
E, à medida que cada ano ou década passa, fica cada vez mais difícil transmitir a urgência ou as
percepções realmente intensas derivadas daquela, digamos, memória viva do novo Irã, do Irã pósrevolucionário. Mas agora a geração jovem, o que chamam de geração Z, ou os jovens de hoje, eles
têm uma experiência ainda mais intensa do que antes. Porque agora viram em primeira mão um
confronto direto com as Forças Armadas dos Estados Unidos, todo o peso das Forças Armadas
americanas e das Forças Armadas israelenses sobre eles. E isso vai revigorar, eu acho, esse governo
revolucionário e essa sociedade revolucionária talvez pelos próximos cinquenta anos. Antes não era
assim. Agora é. Então, daqui para frente, isso é algo novo. Não sei se isso certamente estava nos
cálculos do Ocidente.

Pascal

Bem, eu realmente acredito que, pelo menos as pessoas que estavam trabalhando no planejamento,
achavam mesmo que era um castelo de cartas. Achavam que iria desmoronar. E, mesmo que não
desmoronasse completamente, pelo menos, sabe, nessa forma doentia e distorcida de pensar dos
Lindsey Graham pelo mundo, isso levaria, no mínimo, a uma guerra civil, certo? E a um banho de
sangue em massa. Aí o Irã poderia se destruir por dentro, e nós poderíamos simplesmente ficar
sentados rindo, tipo: “Ah, essa saga iraniana ridícula.” É. Mas não foi isso que aconteceu, certo? Na
verdade, isso levou à consolidação. Eu sei que você esteve principalmente no Irã, mas, como você
também falou sobre o Iraque, qual é a sua impressão sobre o mundo muçulmano mais amplo?
Quero dizer, o islã xiita está, neste momento, meio que provando um ponto muito importante para
toda a região. É como se dissesse: sim, a maioria das pessoas na Palestina é sunita, mas não
importa. Nós nos importamos com elas. Você sentiu algo ou teve alguma conversa sobre esse
aspecto, sobre o que isso vai fazer com o mundo islâmico?

Patrick Henningsen

Com certeza. Há muitas discussões sobre isso, na verdade. Então, estamos falando da Ummah, do
mundo islâmico. E o que aconteceu? O Irã não apenas sofreu o golpe, como continua de pé. E não
só continua de pé, como conseguiu fazer esse incrível movimento de judô geopolítico contra os
Estados Unidos e o império ocidental, por assim dizer, incluindo Israel, revertendo a vantagem.
Sendo o lado mais fraco, estando completamente em desvantagem militar, eles conseguiram
reverter essa vantagem. Agora, podemos falar, sabe, sobre o porquê disso, de uma perspectiva
puramente, puramente geopolítica…
E quando eu digo geopolítico, estou falando da definição de geopolítica: a combinação de geografia,
pessoas, cultura e sociedades, e de como isso pode moldar a política internacional, especialmente a
parte geográfica. Eles alcançaram uma dissuasão militar geopolítica usando a dissuasão geográfica,
e fizeram isso de uma maneira extremamente eficiente. E aí você precisa se fazer a pergunta — e eu
vou voltar ao componente religioso, Pascal, porque isso é realmente crucial. Na verdade, quando
estamos falando do Irã, esse é o cerne da conversa. Mas, quando você fala de um Estado
civilizacional, eu fui repreendido. Eu não falei sobre isso com os iranianos. Eu disse, eu disse: “Então
vocês são um Estado civilizacional de três mil anos.”
Eles dizem: “Não, não, não, não, não. Cinco, cinco.” Então tá certo, certo. Cinco. Eu me corrijo. Um
Estado civilizacional de cinco mil anos. E sabe o que é incrível, Pascal? Talvez tenha sido uma
coincidência feliz, mas no dia quatro de julho, justamente naquele fim de semana em que esse
cortejo fúnebre estava acontecendo, eu estava em Teerã. Era o Dia da Independência dos Estados
Unidos. Isso é um grande evento na mídia. E eu estava participando do funeral de um líder que foi
morto pelo meu governo, cercado por pessoas segurando cartazes dizendo: “Morte à América.” E eu
estava com meu crachá de imprensa, com uma pequena bandeira americana, aliás. Foi um toque
simpático dos iranianos. Eu não me senti desconfortável nem ameaçado. Mas reconheci a
intensidade daquele momento.
Foi um período de muita intensidade emocional para as pessoas. E havia muita curiosidade por parte
dos iranianos sobre o que eu estava fazendo lá, quem eu era, o que eu pensava deles e de tudo
mais, do líder e assim por diante. Mas… eu venho de um país que tem duzentos e cinquenta anos, o
meu país, os Estados Unidos. E então estou em um Estado civilizacional que tem cinco mil anos. Em
algum momento, isso deveria cair a ficha no Ocidente, e também entre os israelenses. Mas essa é
uma ficha que… eu não sei quando vai cair. De qualquer forma, deve haver algumas qualidades
inatas, ou qualidades inerentes, dessa sociedade, desse povo, que fazem deles um Estado
civilizacional de cinco mil anos. Eles devem ter algumas qualidades inerentes, algumas vantagens,
não apenas como indivíduos, mas coletivamente.
E vemos isso no mundo todo, em Estados civilizacionais duradouros, bem-sucedidos e resilientes. O
Irã é um deles. E você começa a ver algumas dessas qualidades surgindo no governo, na forma
como conduzem a diplomacia, como lidam com esta administração norte-americana caótica e insana,
que parece não saber o que está fazendo de um momento para o outro, e também com um regime
israelense totalmente belicoso e cáustico, decidido a aniquilá-los. Então, há um nível de disciplina
que os iranianos demonstram em praticamente todos os níveis de governo. E isso é impressionante.
A paciência, a paciência estratégica, realmente. Eles têm uma compreensão muito boa de si mesmos
e de quem são.
Um sistema de identidade muito forte. E o que eu também vi foi que as pessoas não precisam
receber ordens para entrar em ação. Elas meio que sabem quando precisam agir. Sabem por que
estão agindo, e vêm. E, sabe, me disseram que as pessoas estão… O Trump dizendo que não há
comida nos mercados, que nós deixamos o país de joelhos. Eu vi mais comida sendo distribuída de
graça nas ruas de Teerã, durante as procissões fúnebres. É simplesmente de deixar a mente
perplexa. Como alimentar oito milhões de pessoas, dar bebidas a elas e evitar que sofram insolação?
E todo mundo simplesmente doa. E é a mesma coisa no Arbaeen, a caminhada no Iraque a partir de
Karbala. É a mesma coisa.
É esse tipo de espírito coletivo e esse senso de dever, esse tipo de significado no que eles estão
fazendo. E, por isso, eles permanecem resolutos diante de um inimigo poderoso, poderoso, que
declarou publicamente que quer exterminar a civilização deles. Sim. E isso não é uma ameaça vazia,
aliás. Os Estados Unidos cumpriram parte dessa ameaça, e Israel também. Então, sabe, há uma
certa natureza nisso. E eu vi isso, e foi, para mim, especialmente… Foi muito forte em Teerã, a
energia. Muito forte. E havia um tipo diferente de energia em Mashhad, no fim da tristeza, do luto. E
o interessante, Pascal, e sobre o ponto religioso, é que havia um slogan que você começou a ver por
toda parte, em farsi, árabe e inglês.
Até em inglês, em certos lugares, estava escrito: “Nós devemos nos levantar.” Estava por toda parte.
Sim. E havia essa representação gráfica icônica do punho do Líder Supremo, com seu icônico anel
cor de âmbar e seu manto, com as franjas um pouco desgastadas. Porque ele era conhecido por
isso, por, sabe, não comprar roupas novas, mas sempre usar seus mantos velhos e coisas assim.
Uma vida muito austera. Eu até fui a uma das casas dele em Mashhad e vi sua biblioteca. Aliás, está
cheia de livros americanos. Literatura americana, europeia, Victor Hugo e todos os clássicos
americanos. Então, um indivíduo muito culto e erudito. Mas estava escrito: “Nós devemos nos
levantar.”
E comecei a falar com iranianos sobre isso, porque é um slogan muito curto e tocante. E, Pascal,
recebi muitas respostas diferentes. E isso, para mim, foi fascinante, porque as pessoas diziam: “Ah,
isso é propaganda do regime.” Bom, se é propaganda do regime, como é que pessoas diferentes
interpretam isso de, tipo, dez maneiras diferentes? Então, este é um país que tem um interesse
intelectual e uma profundidade que, eu acho, geralmente são subestimados no Ocidente. Eu
perguntei: “É o Islã que precisa se levantar? É o Islã xiita? É o Irã como país?” “Sim, como país, este
é o nosso momento. Precisamos nos levantar, e precisamos nos levantar contra os opressores. O
Islã precisa se levantar. A Ummah precisa se levantar, precisa enfrentar o desafio. O Islã xiita, eles
são a nação do imã Hussein.”
E essa é uma narrativa muito importante. E ela realmente orienta tudo. Veja a Constituição iraniana,
no artigo, acho que é o cento e cinquenta e quatro. Ela determina que eles defendam povos
oprimidos onde quer que estejam no mundo. Isso é incomum, para dizer o mínimo, para qualquer
país ou qualquer Constituição. Então, o que eles representam globalmente uns para os outros, acho
que dentro do Irã, mas também globalmente para o mundo islâmico — e não só para o mundo
islâmico — é que defenderão Cuba, defenderão a Venezuela, defenderão os norte-coreanos ou os
palestinos, é claro, mais notoriamente. E os palestinos não são persas nem iranianos. São árabes
levantinos. Então, eles defenderiam os irlandeses, ou quem quer que fosse.
Então, há ali um princípio que transcende a religião. Mas a religião é o que, eu acho, serve para
cristalizar esse chamado. Então, o que você vê ali é a destilação de cinco mil anos de um Estado
civilizacional, condensada em parte da essência da atual sociedade islâmica xiita naquele lugar. E
isso é extremamente poderoso. É muito difícil descrever a sensação de estar no meio disso, num
momento tão carregado emocionalmente, quase vinte e quatro horas por dia. Quero dizer, o último
dia avançou direto até quase o amanhecer em Mashhad, com milhões de pessoas nas ruas. E os
cânticos — se eu falasse farsi, claro, mas traduziram algumas coisas para mim — eram muito
desafiadores em relação aos Estados Unidos, sabe.

Pascal

É tão fascinante a forma… as palavras que você está usando para descrever isso. Porque, para mim,
parece que você testemunhou um momento revolucionário. Porque a maneira como você está
falando disso lembra muito as descrições de pessoas vivendo uma revolução de fato. Sabe, todo
mundo nas ruas, com armas e tudo mais. Elas falam de como, quando você faz parte de algo, de
derrubar alguma coisa e depois criar algo novo, isso inspira multidões em massa.
Mas o interessante aqui é que, claro, tudo isso foi em apoio ao próprio governo que estava no poder
e que supostamente deveria ser odiado, e tudo mais. Então quase parece que, de certa forma, você
testemunhou a luta contra a grande estrutura de poder, a que está no topo, certo? É assim que as
pessoas parecem enxergar isso: como uma revolução contra o momento unipolar, contra o grande
hegêmon. Na verdade, há um entendimento comum, mesmo que não tenham uma estrutura comum
para isso, de que esta é uma luta existencial por algo novo.

Patrick Henningsen

Sim, quer dizer, eu testemunhei algo assim. Mas eles também estão testemunhando isso juntos,
porque este é um momento histórico. É um marco na história e na sociedade iranianas do período
pós-revolução. Especialmente porque esse líder atravessou duas gerações: trinta e sete anos como
Líder Supremo. Então, para a maioria das pessoas, especialmente quem tem, digamos, mais de vinte
anos — ou quarenta, cinquenta ou sessenta —, durante toda a vida adulta, essa é a única… essa é a
sua figura paterna nacional. É o seu mentor. É o seu professor. E você ouve muito essa expressão:
“nosso professor”, certo? Eu também ouvi isso em relação a Hassan Nasrallah, que era considerado
um professor. Então, são potências intelectuais formidáveis em termos de liderança.
Eles também são líderes religiosos. São filósofos. São estudiosos de literatura. São poetas. Mas
também estão ali para ajudar a orientar as políticas. É por isso que eles têm um sistema único, o
sistema de governo deles. Quando você chega a essas encruzilhadas enormes, como sociedade, no
cenário geopolítico e na história, as decisões não podem ser guiadas puramente pela política. Sabe,
a realpolitik não pode ser guiada apenas pela política de poder. Tem que haver um componente
moral. Tem que haver alguns princípios orientadores. E você precisa dessa combinação de um Papa
e de um rei-filósofo para ajudar a orientar. E ele tem uma ligação com o povo, aliás, uma ligação
direta com o povo. Se o Líder Supremo disser: “Saiam e apoiem este momento”, eles sairão.
E talvez um político não tenha esse mesmo nível de resposta e engajamento. Então,
consequentemente, as pessoas neste país são muito engajadas politicamente. O nível de intensidade
do debate político é muito evidente, e às vezes ele não é brando nem educado. É bastante intenso.
E há facções se chocando com bastante vigor e, em alguns casos, emocionalmente, por causa de
algumas dessas questões: que rumo o país deve tomar, que decisões deve tomar, até mesmo sobre
a questão nuclear ou sobre como responder a esta guerra e o que a sociedade precisa fazer para
seguir em frente. E eu diria que isso é um sinal de um ambiente democrático vigoroso e saudável.

Pascal

É uma sociedade altamente politizada, certo? Uma sociedade que se sente parte do corpo político,
certo? Quer dizer, temos coisas muito parecidas na Suíça, mas temos democracia direta. Só que os
debates ficam muito acalorados, porque sabemos que temos participação nisso, certo? E eu quero
convencer os outros. Então, os iranianos também têm isso, embora a nossa mídia de propaganda
nos diga que o Líder Supremo toma todas as decisões e todo mundo simplesmente obedece, certo?

Patrick Henningsen

Sim, exatamente. Exatamente. Eles sentem… não é só que eles sentem isso, eles sabem disso.
Porque, sabe, eles têm naquele país um mecanismo de construção de consenso. É muito sofisticado
e inclui a população. E a liderança política responde muito à população. Mas esse processo de, por
assim dizer, destilar o consenso talvez avance um pouco mais devagar. Leva um pouco mais de
tempo. Não é um sistema de consenso de cima para baixo. Então, posso comparar com a Rússia,
onde existe essa vasta constelação institucional de segurança nacional, com vários tipos de ONGs,
academia e antigas instituições verticais soviéticas, todas juntas destilando o consenso de segurança
nacional na Rússia. É muito sofisticado e, às vezes, se move de forma incrivelmente lenta. Mas é
muito real. E, para conseguir essa adesão, você precisa trabalhar com todas essas milhares de
pessoas.
O Irã tem muitas instituições semelhantes, muitas ONGs, ex-funcionários do governo que atuam na
sociedade civil iraniana. Muitos deles são bem mais velhos e formam uma espécie de conselhos de
anciãos, orientadores e guardiões, em alguns aspectos oficiais e, em outros, não oficiais. Opiniões de
vários tipos vêm de lugares diferentes, e isso é muito real por lá. O povo é uma parte importante
disso, e o governo e a liderança prestam muita atenção ao que as pessoas pensam e sentem. Então,
tudo meio que funciona em conjunto. Essa ideia no Ocidente, e a forma como retratam o Irã como
um extremista religioso, um culto xiita duodecimano do islã, um culto religioso obcecado por
escatologia… Se você quiser falar de cultos religiosos obcecados por escatologia, não precisa
procurar além do evangelismo cristão, do sionismo cristão ou do sionismo, ponto final.

Pascal

É muito irônico que essas acusações venham de uma pessoa que tem uma cruz de cruzado no peito,
como o seu ministro da Guerra, certo? É muito irônico. Quer dizer, em certo sentido, toda acusação
é uma confissão, certo? Esse é um dos principais problemas que tenho com o nosso Ocidente:
pegamos nossas próprias ações e interpretamos os outros como se eles necessariamente estivessem
fazendo o mesmo, certo? Então, se eles fazem algo, deve ser como nós. Quando, na verdade, não é.
E esse é o mal-entendido. Eles fazem as coisas de forma genuinamente diferente. Eles pensam de
outra maneira.

Patrick Henningsen

Nosso enaltecido secretário de Guerra nos Estados Unidos — você está se referindo a Pete Hegseth
—, com a Cruz de Jerusalém e vários outros símbolos das Cruzadas gravados permanentemente no
corpo. Mas, voltando ao seu ponto anterior, Pascal, foi isso que aconteceu? Para mim, é
impressionante pensar em como isso está se desenrolando em tempo real. Os Estados Unidos
mataram um líder idoso, mas muito reverenciado e amado pelo país, o padrinho do Estado
revolucionário islâmico do Irã, o padrinho atual. Eles o mataram. Agora, o filho dele foi indicado
como herdeiro aparente, certo?, pelo Conselho dos Peritos, e aceito pelo povo. Mas o filho dele não
apareceu em público. Isso tem sido extremamente controverso.
O Ocidente está dizendo que o filho dele não está vivo. Que ele morreu ou ficou mutilado. Estão
espalhando todo tipo de epítetos e insultos grotescos, coisas desse tipo, para rebaixar e difamar o
novo líder, Mojtaba Khamenei. Mas, muito obviamente, a razão pela qual ele não apareceu em
público é que, no minuto em que aparecer, estará marcado para morrer. Ele será o principal alvo de
ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel, de bombas guiadas a laser e assim por diante, para
matá-lo. Porque a política de Israel e dos Estados Unidos é decapitar e matar a liderança no Irã. Mas
o que é impressionante nisso é que ele não mostrou o rosto. Não se apresentou publicamente. E, de
certa forma, isso valida o sistema político deles.
O líder não está visível e, ainda assim, há mais coesão e solidariedade do que nunca, e mais apoio à
liderança. E eles sabem muito bem que a vida dele e a vida da família dele estão em perigo pelo
simples fato de ele ter sido colocado na linha de frente, na posição de liderança. E eles aceitam isso.
As pessoas entendem e aceitam isso. Não há debates mesquinhos sobre isso no Irã. Isso
simplesmente é sabido e aceito. Mas o Ocidente não sabe como lidar com isso, porque nos disseram
que, se você cortar a cabeça da cobra, o regime vai desmoronar. E, sabe, esse é o tipo de retórica
militarista, no estilo de Doutor Fantástico, a que estamos tão acostumados, especialmente vinda dos
Estados Unidos.

Pascal

Uhum.

Patrick Henningsen

E o que está acontecendo aqui confunde tudo. Confunde tudo. Então, estamos procurando maneiras
de encontrar essas fissuras no Ocidente, essas rachaduras que possamos explorar e onde possamos
fincar uma cunha. E, quanto mais eles atacam o Irã, demonizam o Irã, mais essas fissuras e
rachaduras desaparecem dentro da sociedade iraniana. E isso é, para mim, um fenômeno bastante
extraordinário. Acho que, se sobrevivermos a isso, se pudermos olhar para trás e estudar o que
aconteceu, este será um dos grandes estudos de caso sobre a mudança de paradigma nas ordens
mundiais.

Pascal

Sim, sim. Sabe, por tudo de ruim que as guerras têm, elas tendem a trazer clareza para um
momento, por causa da violência e de tudo mais. Certas coisas vêm à tona, certo? Elas aparecem. E
certos poderes mostram que não têm o poder que dizem ter. Acho que os Estados Unidos são um
deles agora, mostrando isso. O outro pode ser, por assim dizer, um azarão subestimado, que vai
mostrar que existe, na verdade, uma configuração completamente diferente, mais adaptada ao que
é necessário. Quer dizer, agora vemos que o Irã tem uma estratégia completa e totalmente diferente
daquela que qualquer escola de relações internacionais no Ocidente teria lhe dito. A estratégia é
mais ou menos assim: somos capazes de absorver, vamos realizar contra-ataques convencionais,
vamos restabelecer a reciprocidade, vamos manter nossa posição e descentralizamos a liderança
militar.
Portanto, cada líder militar pode escolher seus próprios alvos. Não há uma organização central. Quer
dizer, ninguém no Ocidente organizaria seu Estado dessa forma. E os iranianos fazem isso há
cinquenta anos. E o fato de ninguém ter entendido isso só demonstra a completa e absoluta falta de
conhecimento no Ocidente sobre o Irã e tudo mais. O que você acha? Qual foi a sua observação?
Como outras pessoas da mídia — não só no Ocidente, não só nos Estados Unidos e na Europa, mas
também os chineses e o Sul Global — reagiram a isso? Você viu alguma cobertura da mídia africana
e assim por diante? Como o Sul Global interpretou isso, na prática? Porque esse é um sinal enorme,
provavelmente maior do que Rússia e Ucrânia.

Patrick Hennings

Sim, a principal interação que tive com outras mídias internacionais foi com pessoas do Paquistão e
também da Caxemira. E, sabe, alguns também são muçulmanos xiitas, e outros não. Alguns são
sunitas. Mas o que me pareceu interessante em relação às outras pessoas de países muçulmanos foi
como essa questão, e como o Irã, transcende as divisões sectárias usuais que talvez se pense, no
Ocidente, serem tão prevalentes entre sunitas e xiitas, por exemplo. E havia cristãos libaneses lá
também, jornalistas. E isso realmente transcende essas divisões. Daqui a pouco vamos falar sobre o
Sul Global, mas, em termos da Ummah, a comunidade muçulmana global, o Irã assumiu um papel
de liderança pelo exemplo. E isso é significativo.
Isso levou muita gente a apoiar o Irã, puramente pela questão moral do que eles defendem. E pelo
fato de estarem dispostos a sofrer consequências em nome dos palestinos ou dos libaneses. Eles
estão dispostos a fazer isso, a se expor. E essa é uma mensagem muito poderosa em todo o mundo
muçulmano. E isso, de certa forma, derruba algumas das divisões sectárias que o Ocidente e os
Estados do Golfo tentaram promover de maneira bastante agressiva há muito tempo. Isso atende a
certos interesses geopolíticos e coloniais… Estamos falando dos britânicos, sabe, os progenitores do
wahabismo. Vamos deixar isso claro. E os Estados Unidos também seguiram nessa linha e usaram
isso como sua principal ferramenta geopolítica, que é o sectarismo. E isso transcendeu tudo isso.
Então, acho que isso é muito positivo, de certa forma, porque, para muitos jornalistas do mundo
todo, sejam de países muçulmanos ou de fora deles, isso significa que eles não precisam mais filtrar
essa história por nenhuma lente sectária. E significa que a história está muito clara, é simples. E
acho que isso é algo com que o Ocidente não contava. Porque é preciso pensar que os Estados
Unidos investiram tanto, durante décadas e décadas, nessa narrativa de sunitas contra xiitas. E
estão colocando tudo nisso. Sabe, até a Tulsi Gabbard promovia isso agressivamente quando
trabalhava para a Fox, pouco antes da eleição de dois mil e vinte e quatro. O que foi meio
surpreendente, chocante e decepcionante para alguns de nós que costumavam apoiá-la, lá quando
ela concorria à presidência como candidata anti-guerra.
Mas esse é só um exemplo de como ela está em toda parte. Essa linha fica no Ocidente. Então, acho
que muitos jornalistas internacionais ficaram bastante, sabe, felizes de me ver ali, junto com
algumas outras pessoas do Ocidente, e de interagir conosco, conversar conosco. E, sabe, não dá
para estar ali e não fazer perguntas, não aprender sobre a vida religiosa deles, sobre a fé deles,
sobre o que está acontecendo diante dos seus olhos. Porque isso é parte essencial de como esse
drama está se desenrolando, especialmente esse funeral e as visitas a esses locais sagrados, como
Mashhad e o Grande Santuário do Imã Reza, e assim por diante. Isso é muito importante na
narrativa que as pessoas têm sobre a própria história.
E assim, há a resistência e o dever na história do imã Hussein, de se levantar contra os opressores,
arriscando a própria vida e, no fim, dando a própria vida em nome de pessoas que não eram fortes
o bastante para lutar por si mesmas. E essa mensagem é o cerne. Então, esse componente moral é
muito difícil de superar. Sabe, é uma mensagem universal, e convida ao apoio de todos. E isso
significa que você pode universalizar esse princípio, e ele pode se aplicar a qualquer pessoa no
mundo. E qualquer um pode abraçar essa causa. Nem precisa ser muçulmano xiita. Mas o Irã está
desempenhando uma espécie de papel exemplar no Islã, na geopolítica, em um sentido anticolonial
— ou como você quiser definir — anti-imperialista, anti-hegemônico. Eu diria que anti-hegemônico
provavelmente é um termo melhor.
Eles estão desempenhando um papel exemplar muito importante nesse sentido. E fazem isso sob
sanções, sob cerco econômico total, sob embargo. Eles não têm a força aérea que a Turquia tem.
Não estão equipados como um exército convencional, nem chegam perto do nível de alguns de seus
vizinhos, até mesmo da Arábia Saudita. Mas, de alguma forma, conseguiram aproveitar os recursos
que têm e se concentrar, de certa forma, na visão de futuro — o futuro da defesa, da defesa
nacional e da guerra. Como você disse antes, passaram décadas se preparando para enfrentar um
ataque liderado pelos Estados Unidos. E conseguiram fazer isso. E, sabe, como eles conseguiram?
Eu viajei por toda a Ásia Ocidental, Pascal.
E eu nunca vi um país no Oriente Médio ou na Ásia Ocidental, pelo menos do Irã rumo ao oeste, até
o Mediterrâneo, que não importe mão de obra nenhuma. Em outras palavras, todo mundo trabalha
naquele país. E, da base da sociedade até o topo, por assim dizer, todos trabalham. É um país com
enorme nível de instrução. O ensino superior é uma conquista absolutamente desejada e cobiçada
naquele país, tanto por homens quanto por mulheres. Então, todos trabalham, em todos os níveis da
sociedade. Eles não dependem da importação de mão de obra, como os Estados do Golfo
dependem. Os Estados do Golfo importam toda a mão de obra braçal, todos os seus trabalhadores
da construção. Eles os usam como bucha de canhão para construir Dubai, vindos de Bangladesh, Sri
Lanka, Filipinas e assim por diante. E depois toda a gerência intermediária é importada dos Estados
Unidos, da Grã-Bretanha, da França, da Alemanha, da Europa, da Suíça.
A gestão intermediária e os cargos de diretoria geralmente são ocupados por árabes do Golfo, é
claro, em sua maior parte. Mas eles importam tudo. O Irã é completamente autossuficiente. Então,
do ponto de vista do capital humano, eles conseguiram desenvolver um programa de mísseis de
última geração. Conseguiram produzir internamente tecnologia antiaérea, lançamentos de foguetes
de múltiplos estágios para satélites, colocando seus próprios satélites em órbita. Conseguiram
desenvolver seus próprios setores médico e farmacêutico, além de indústrias de materiais e
construção, engenharia e arquitetura. E o Irã tem uma longa e notável história de grandes
arquitetos. Quer dizer, eles conseguiram fazer isso. Então, não há como isolá-los completamente e
sufocá-los, como outros países foram sufocados.
Acho que a Síria era parecida nesse sentido. Na Síria, todo mundo trabalhava. Eles não importavam
mão de obra. E não era exatamente comum importar, como é, por exemplo, no Líbano. Há muita
mão de obra de menor qualificação importada da Eritreia, da Etiópia, das Filipinas, como babás e
empregados domésticos da Nigéria e de outros países africanos. Você não vê isso na Síria. Então,
nesse aspecto, a Síria era parecida com o Irã. Mas, do ponto de vista do capital humano, Pascal, se
não houvesse sanções, se fosse um mercado livre, eu não vejo como qualquer um dos Estados do
Golfo poderia competir com o Irã.
Acho que, daqui a dez anos, o Irã provavelmente teria a principal companhia aérea do mundo: a
mais luxuosa, com o melhor serviço, a melhor comida, os melhores aviões. Comprem eles esses
aviões dos Estados Unidos, da Boeing ou da Airbus, ou não, seriam líderes mundiais em muitas
áreas diferentes. É meio óbvio que eles estão sendo contidos pelos Estados Unidos, pelo Ocidente,
por Israel e assim por diante. E, na verdade, só estão tentando adiar o inevitável. Então, acho que,
de um ponto de vista convencional, o Irã alcançou uma grande vitória em termos de dissuasão.
Agora, se isso entrar no campo não convencional, as pessoas estão falando de ameaças nucleares
com muita casualidade, o que já é perturbador por si só.
Mas, mesmo assim, mesmo assim, isso não vai… Nem mesmo um ataque nuclear ao Irã, limitado ou
não, vai acabar com a civilização. Não vai eliminar o povo. E eu acho que a inutilidade até mesmo
dessa ideia, esperamos, vai acabar sendo compreendida. Mas, sabe, o Japão é um bom exemplo. Os
Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão. Isso acabou com a civilização
japonesa? De jeito nenhum. Mudou o país. Mudou a política. Mas o Japão continua sendo um Estado
civilizacional, sabe, entre outros Estados civilizacionais. Então, o Irã não é diferente.

Pascal

Agora, eu realmente me pergunto quanto tempo vai levar para o Ocidente, a Europa e a América do
Norte entenderem que há lugares que simplesmente têm outras formas de se administrar. E, mesmo
que não se pareçam com o que nós fazemos, isso não quer dizer que sejam inferiores. De jeito
nenhum. Quer dizer, eles estão apenas provando que, de fato, descobriram como lidar com o
grandalhão, certo? E não é bonito. Não é nada bonito. Mas ninguém jamais disse que era ou que
seria. O aspecto fascinante para mim, mais uma vez, é esse tipo de movimento de judô, como você
descreveu, certo?
Em certo sentido, foram os Estados Unidos que agora liberaram todo o potencial do Irã, não só
como uma espécie de sinal do que é possível, mas também como uma… sabe, como uma… A
coesão social dentro do país, que provavelmente é o maior patrimônio que um país, uma nação,
pode ter: coesão social. Isso não quer dizer que todo mundo precise, de uma maneira fascista,
andar na mesma direção. Acho que o Irã mostra o contrário. Cada um segue seu próprio caminho,
mas parece que eles saíram disso dessa forma. Este é agora o novo posto.
Sabemos para onde ir, porque os outros estão fechando todas as outras possibilidades e nos
bombardeando nessa única direção, certo? Então, você acaba tendo que assumir e ser o portaestandarte de uma forma melhor de fazer política, mesmo que não queira isso. E tenho amigos
iranianos que me disseram algo como: “Bem, estamos meio insatisfeitos, porque por que deveríamos
receber as bombas pelos palestinos? Quer dizer, é muito ruim para eles, mas por que nós?” Só que
agora acontece que, de qualquer forma, elas são lançadas sobre vocês. Então, quer dizer, isso muda
o jogo, não muda? Qual é a sua avaliação geral de como isso vai moldar os próximos meses e anos
desse conflito?

Patrick Henningsen

Vou começar pela perspectiva da sociedade iraniana. Há um reconhecimento que está, aos poucos,
se consolidando. Obviamente, eles estão em alerta máximo. Os Estados Unidos vão continuar
escalando e desescalando repetidamente, e podemos falar sobre o motivo disso. Mas acho que
existe, entre os iranianos, uma percepção que eu detectei, que pude ver. Eles sabem o que
conquistaram geopoliticamente. Mas também há uma humildade nisso. Eles não estão nas ruas
comemorando como os americanos comemoraram a Guerra do Golfo no Iraque, balançando
bandeiras, celebrando as tropas e ouvindo o hino nacional. É mais uma espécie de percepção
silenciosa, uma confiança silenciosa de que, até agora, eles atravessaram esse anel de fogo. E há
também uma humildade nisso. Acho que essa humildade vem do componente religioso, da dimensão
religiosa da sociedade e dos indivíduos, e daquilo que eles compartilham coletivamente.
E essa é uma força moderadora realmente essencial. Isso significa que eles são muito focados,
muito observadores, muito pacientes, muito intelectuais. Também são muito fortes em matemática e
ciências, vale acrescentar. Se você olhar para a história, em termos de colonialismo, a história do
colonialismo muitas vezes foi uma história de tecnologia. É a capacidade de uma potência de exercer
alguma vantagem na guerra, na tecnologia, na administração, ou em alguma outra área, que a
colocaria numa posição de dominar outra civilização ou povo menos avançado. E agora, no século
vinte e um, muitas dessas barreiras caíram, e a tecnologia é mais ou menos global e onipresente,
especialmente no que se refere ao Irã, muito obviamente. Então, aquela vantagem que os
britânicos, ou os soviéticos, nesse caso, ou os americanos tinham anteriormente sobre o Irã, usada
como uma peça geopolítica no tabuleiro.
Isso já não é tão visível agora. Acabou. Se dissolveu. E o Irã está demonstrando isso agora, eu acho.
Não há tecnologia que possa ser usada contra eles, seja uma guerra de quinta geração pela internet,
mobilizando tumultos violentos e assim por diante, lançando aos milhares no Irã os terminais
Starlink de Elon Musk. Eles lidaram com tudo isso, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas
também do ponto de vista estratégico, social e da capacidade de governar do Estado. E é algo
bastante incrível. Então, isso é realmente importante.
E então isso é, eu diria, um tipo de fator atenuante diante dos ataques externos. Agora, a situação
econômica no Irã está muito ruim, mas eles estão lidando com isso. Estão lidando porque há
solidariedade. Há o reconhecimento de que estão sendo vitimizados. Estão sob cerco. Estão sendo
atacados. E, por causa disso, existe paciência. Eles estão se preparando para o longo prazo. Então,
acho que todas essas são realidades. Olhando adiante, não acho que os Estados Unidos vão parar
de antagonizar ou atacar o Irã tão cedo, nem os israelenses.
Eles podem passar por períodos em que conduzem negociações falsas ou usam a manobra de um
memorando de entendimento falso. Mas os Estados Unidos têm estratégias de longo prazo muito
claras, nas quais estão focados. Uma delas é eliminar quaisquer concorrentes de igual porte. Isso
atravessa vários governos e está expresso em “O Grande Tabuleiro de Xadrez”, de Zbigniew
Brzezinski, publicado em mil novecentos e noventa e sete. E é uma estratégia que antecede até
mesmo Brzezinski. Então, eles têm isso. Eles têm o Corredor do Meio, que vão interromper e
sabotar. Ele vai da Rússia, passando pelo Irã, até a costa sul, em Chabahar, seguindo até o porto de
Mumbai, na Índia. Essa é uma prioridade geoestratégica dos Estados Unidos: interromper,
enfraquecer e sabotar o Corredor do Meio.
A Iniciativa do Cinturão e Rota da China também está sendo sabotada, desestabilizando o Cinturão e
Rota chinês. Esta é uma grande estratégia e um objetivo consistentes, de longo prazo, dos Estados
Unidos. Além disso, temos os pontos de estrangulamento: o estreito de Bab al-Mandeb, o estreito de
Ormuz, o controle dessas vias navegáveis fundamentais e não permitir que um concorrente de
mesmo nível as controle. Tudo isso está definido como estratégia dos Estados Unidos. Tudo isso é
prioridade do Pentágono. O Pentágono tem financiamento. Essas operações têm financiamento e
vão continuar. Podem reduzir o ritmo, mas depois vão acelerá-lo novamente. E o que os Estados
Unidos vêm fazendo é usar o memorando de entendimento como pretexto para criar e encenar
provocações dentro e ao redor dos estreitos, a fim de ir eliminando alvos de infraestrutura ao longo
de um período prolongado.
E eles vão continuar com isso durante as eleições de meio de mandato e entrando em dois mil e
vinte e sete. Porque a estratégia de longo prazo dos Estados Unidos… não vem aí nenhum momento
de paz e harmonia, não sob o governo Trump. Isso não vai acontecer. O único motivo para os
Estados Unidos reduzirem sua estratégia de longo prazo seria não terem, naquele momento, os
equipamentos ou os recursos disponíveis para fazer o que querem fazer. A única coisa que os
impede de continuar atacando o Irã é uma questão de recursos e logística para os Estados Unidos.
Então, eles vão encenar essa farsa de… sabe, Donald Trump fez uma dessas esta semana: “Ah,
vamos… os iranianos estão nos pedindo para negociar. Os árabes querem que a gente suspenda os
ataques. E, pelo bem da humanidade e do povo do Irã, vamos mostrar misericórdia e negociar.”
Isso é só um ardil. Os Estados Unidos estão agindo fora do marco legal, sem a aprovação do
Congresso para uma guerra, simplesmente enviando uma carta ao Congresso a cada sessenta dias,
pedindo a renovação da autorização para o uso da força militar. E eles terão interceptadores
suficientes, mísseis suficientes, para conduzir uma campanha de dez a catorze dias. Depois, vão
intensificar essas ameaças maciças e usar isso para alegar que têm poder de barganha para um
acordo. E o acordo vai fracassar. E, em alguns casos, os Estados Unidos vão usar agora o fato de
Trump ter dito: “Ah, estamos recuando e fazendo um acordo.” Isso também é um sinal verde para
um ataque dos Estados Unidos e de Israel, se você olhar o histórico anterior deles.

Pascal

É, é, não.

Patrick Henningsen

Então, vamos ver isso se repetir, de novo e de novo, Pascal, eu prevejo, até as eleições de meio de
mandato e também depois delas.

Pascal

Não, eu concordo. E essa também é a parte em que Brian Berletic e outros estão absolutamente
certos ao destacar que isso é uma política profundamente enraizada. Ela acontece abaixo, na
verdade, do nível da tomada de decisões do dia a dia e tudo mais. Mas isso só valida, mais uma vez,
a estratégia dos outros, que dizem: sim, o estado de guerra permanente que os Estados Unidos
impõem é permanente. Então, a única forma de lidar com isso é tirar deles os meios de implementar
isso. Então eles estão trabalhando nisso. É essa a questão. Eles perceberam isso, junto com os
russos também. E acho que os chineses, cada vez mais, entendem que é preciso garantir que os
Estados Unidos não consigam fazer isso. Não é que eles não queiram. Você nunca vai mudar essa
vontade. Mas pode mudar a capacidade deles de agir. Então, esse provavelmente é o jogo dos
próximos anos.

Patrick Henningsen

O cronograma com que a administração americana está trabalhando, sabe, é de dois e quatro anos,
e coincide com as eleições. O estilo de uma política externa democrata será diferente do de uma
política externa republicana, ou da política externa de Trump. Mas a estratégia subjacente, como
você disse, se mantém consistente entre os governos. Então, há certas oportunidades em uma
administração Trump que o império dos Estados Unidos, por assim dizer, pode concretizar. Ou que
Israel pode concretizar, também usando o império dos Estados Unidos para seus objetivos de um
projeto de Grande Israel. Aliás, isso também é aceito pelos estrategistas dos Estados Unidos, desde
que não impeça a estratégia deles.
Objetivos imperialistas americanos. Mas há uma oportunidade, nos dois anos restantes do governo
Trump, de fazer certas coisas bombásticas. Porque, quando Trump sair, aí entra o poder brando e
inteligente das ONGs, um tipo totalmente diferente de subterfúgio, trabalhando por meio de
organizações de direitos humanos para criar narrativas de responsabilidade de proteger e assim por
diante. Mas você tem razão. A Rússia e o Irã entendem isso claramente. Eles entendem que esta é
uma guerra de atrito e que se trata de tirar recursos do império ao longo do tempo. Eles estão
totalmente, totalmente envolvidos nisso. Sabe, a outra coisa que eu diria, Pascal, é…
Sabe, quando a liderança iraniana chega a uma cúpula internacional, ao lado dos russos, dos
chineses e de todos os outros, nenhum outro país enfrentou os Estados Unidos de igual para igual e
sofreu todo o impacto das Forças Armadas americanas como o Irã. Na era moderna, é o único país
que fez isso. Então, isso lhes dá um certo nível de respeito. E, se você pensar na tentativa deles de
impor essa linha vermelha moral, como fizeram no sul do Líbano, e isso estava na primeira cláusula
do memorando de entendimento, isso é, na prática, uma linha vermelha moral. Então, nas relações
internacionais, isso é um poder normativo. Por definição, é um poder normativo. Portanto, o Irã, por
padrão, assumiu o papel de, eu diria, poder normativo na região.
Não há mais ninguém, basicamente, tentando impor uma linha vermelha com base em um princípio
moral ou ligado aos direitos humanos. E só superpotências podem fazer isso, se conseguirem
sustentá-la com poder militar. Essa é a diferença entre uma potência normativa de nível médio e
uma superpotência. Uma superpotência pode sustentar essa linha vermelha, esteja ela errada ou
não. Os Estados Unidos traçam muitas linhas vermelhas equivocadas, vamos deixar isso claro. O que
define você como uma superpotência é a capacidade de sustentá-la com poder duro. Então, o Irã,
por padrão — talvez não fosse isso que pretendesse fazer —, mas, por padrão, está ocupando essa
posição, pelo menos na região.
Eu não iria tão longe a ponto de dizer globalmente. Mas, se você considerar a importância da região
como um ponto de articulação geopolítico e geoestratégico, então, na verdade, pode-se dizer que
eles são uma superpotência global em relação ao papel que desempenham nessa importante
dobradiça, por assim dizer, entre o Ocidente e o Oriente. E isso não pode ser ignorado. As outras
potências reconhecem isso. E isso significa que, se o Irã for disciplinado, consistente, moralmente,
militarmente, em termos doutrinários e de política externa, eventualmente terá apoio até mesmo das
Índias do mundo. E, não importa o quê, isso vai acontecer. É um novo precedente.

Pascal

E é, sem dúvida, um precedente do mundo multipolar para o qual, um dia, vamos olhar para trás e
tirar conclusões. Mas, por enquanto, eu preciso agradecer muito a você por compartilhar todas essas
experiências e observações conosco. Bem rapidamente, Patrick: se as pessoas quiserem acompanhar
você, onde devem ir?

Patrick Henningsen

Bom, espero poder mandar alguns links para vocês, para colocarem aí embaixo, se der. Mas, com
certeza, sigam a gente em 21stcenturywire.com. E apoiem nosso canal no YouTube. A Alphabet não
está nos fazendo nenhum favor, então precisamos que as pessoas entrem lá diretamente. Curtam e
se inscrevam. Vou mandar esse link para vocês, além de um Substack. Mais recentemente, neste
ano, também estamos desenvolvendo uma presença no Substack. Então, sim, qualquer apoio de
qualquer pessoa é muito apreciado.

Pascal

Pessoal, por favor, apoiem o trabalho de jornalistas verdadeiros e fantásticos. Apoiem Patrick
Henningsen. Vou colocar na caixa de descrição abaixo todos os links que você me enviar. E
conversaremos de novo em breve. Patrick Henningsen, muito obrigada pelo seu tempo hoje.

Patrick Henningsen

Obrigado, Pascal. Agradeço.