Como Ali Khamenei, mesmo morto, consolida a vitória iraniana sobre os EUA
Como temos afirmado aqui, o Irã já venceu a guerra contra os EUA. Contra isso, não há mais nada que os EUA possam fazer.
A aceitação, por Trump, dos dez pontos e a assinatura, em Versalhes, do memorando de quatorze pontos são uma clara assinatura da derrota.
Não importa o que os genocidas de Israel e dos EUA façam, não conseguirão melhorar esse acordo para eles.
Trump pode ou não ter isso claro, mas a liderança iraniana sabe que o tempo está a seu favor. Basta manter o controle sobre o estreito e não aceitar provocações, bem como responder proporcionalmente e de forma firme a qualquer ataque.
Trump tem o tempo contra si. As contradições se acumulam internamente, enquanto Israel está à beira do colapso.
Trump busca a saída honrosa que o Irã não lhe deu. Busca uma “narrativa” que possa servir eleitoralmente para sua base e, por isso, tenta bagunçar o tabuleiro, encontrar trapaças e artimanhas.
O cessar-fogo e o fim dos ataques haviam baixado o preço do petróleo, abrindo para Trump uma nova janela que possibilitasse uma nova rodada de pressão sobre a direção iraniana, na hipótese de algum recuo que alimentasse uma “gloriosa” narrativa de vitória para Trump ou uma divisão interna no Estado iraniano.
Mais uma vez, o império fracassou com suas novas tramoias, e a resposta da República Islâmica foi o maior funeral da História da Humanidade por seu líder assassinado pelos EUA e por Israel.
A resposta de unidade política do povo iraniano, evidente para qualquer um que tenha olhos para ver, é outra grande derrota para os EUA.
Desde o final de semana passado, na verdade ainda antes, os EUA procuraram uma justificativa para romper o acordo de cessar-fogo e continuar atacando, o que, na prática, significa bombardear.
Como já era esperado, os bombardeios não conseguiram mudar a situação, já que não enfraquecem o apoio popular ao governo. Ao contrário, fortalecem-no e, principalmente, isolam as correntes políticas que fazem oposição, já que, depois dos bombardeios, são facilmente acusadas de colaborar com o agressor estrangeiro, tornando-se cúmplices do assassinato de iranianos.
Nenhuma guerra foi vencida por bombardeios. Embora esse cenário de bombardeios pareça vencer um inimigo menor e incapaz de impedir a destruição, o poder político sobrevive aos escombros, porque ele não está assentado em palácios ou sedes governamentais, mas nas relações humanas, que independem de estruturas físicas para sobreviver.
O principal fator da organização política é a legitimidade, que pode até ser imposta pela força. Mas, para isso, o exército precisa conquistar o terreno, e essa ainda é uma regra bastante tradicional.
Para derrubar o governo iraniano e alcançar seus objetivos, os EUA precisam enfraquecer a legitimidade do governo. Contudo, com os bombardeios, especialmente os que atingem apenas civis, a legitimidade do governo só aumenta.
A outra opção seria invadir por terra. Mas um país como o Irã faria disso uma derrota estratégica quase certa. Seriam necessários mais de 200 mil homens; alguns falam em 500 mil tropas e alguns trilhões.
Os EUA foram derrotados no Iraque e, mais recentemente, no Afeganistão. Ao contrário de enfraquecer forças hostis, ampliaram o poder político do Talibã e conseguiram elevar o xiismo à força dominante no Iraque.
Os ataques dos EUA, nos últimos dias, concentraram-se na região sul do Irã. No dia 8 de julho, Trump disse que a trégua havia acabado e lançou uma série de bombardeios próximos ao Estreito de Ormuz, certamente buscando alguma vulnerabilidade iraniana na região do estreito e que, sem poder manter o controle da navegação, voltassem à negociação e, de alguma forma, Trump pudesse se apresentar com alguma vitória.
O Irã respondeu com ataques a instalações militares dos EUA nas monarquias vassalas da Península Arábica e, no dia 17 de julho, atingiu a base americana de Muwaffaq Salti, na Jordânia, matando dois soldados americanos e provocando outras baixas — um terceiro morto seria confirmado dias depois.
Os EUA responderam com mais bombardeios, e nos dias seguintes a Guarda Revolucionária atacou repetidamente bases no Kuwait, Bahrein e Jordânia, reivindicando a destruição de caças F-15 em solo e outras aeronaves.
No dia 22 de julho, o Irã lançou uma nova onda de ataques, atingindo mais F-15 e infraestrutura de drones nas bases americanas de Prince Hassan e King Faisal, na Jordânia.
Nestes dias, a imprensa norte-americana já estampava matérias sobre feridos e mortos entre os soldados estadunidenses, e Trump fez declarações públicas prometendo retaliação contra o Irã.
A verdade é que os EUA enfrentam uma situação nova, pelo menos desde a Guerra do Vietnã e talvez desde a Segunda Guerra Mundial.
Todas as inúmeras guerras que os EUA promoveram desde 1945 foram contra forças que negociaram algum tipo de rendição às vontades do império ou tiveram de resistir por anos, causando baixas nas tropas americanas, mas sempre como resistência, com atividades guerrilheiras e sem poder causar danos em território norte-americano, contando com um desgaste custoso para a resistência, sangrando o império lentamente até que este decidisse se retirar.
Assim foi no Vietnã: cerca de três milhões de mortos, cerca de cinquenta vezes o número de aproximadamente 58 mil norte-americanos mortos.
No Iraque, quase um milhão de mortos para cerca de 4.800 mortos entre os invasores liderados pelos EUA.
No Afeganistão, há estimativas superiores a 200 mil mortos, sendo mais de 3.000 o número de mortos entre os invasores.
A questão é que os EUA têm um custo proporcionalmente baixo e cada vez mais recorrem ao bombardeio e ao cerco como forma de impor as suas vontades, e suas Forças Armadas se prepararam para isso.
O Irã tem uma capacidade militar diferente. É capaz de manter o controle territorial, disputar o espaço aéreo, causar danos econômicos de curto prazo e atingir alvos militares importantes dos EUA.
É uma situação nova para os EUA. Por isso estão perdidos e hoje já buscam um novo acordo com o Irã, no qual o Irã deve impor mais exigências.
Trump tenta uma cartada: estimular uma bomba nuclear pela Arábia Saudita, a fim de criar uma nova ameaça para o Irã e tentar conseguir alguma vitória para as novas negociações.
A derrota dos EUA já foi definida. Os ataques dos EUA e as novas rodadas são apenas parte do processo de negociação, a fim de definir exatamente os pontos.
Mas vale reafirmar: a cada nova onda de ataques frustrados, a cada dólar a mais no preço do barril e quanto mais se aproxima novembro, mês das eleições de meio de mandato nos EUA, mais concessões o Irã conseguirá arrancar dos EUA e mais humilhado Trump sairá.
Fontes:
AL JAZEERA. Iran attacks Bahrain, Kuwait and Jordan after US hits Iranian nuclear site. Al Jazeera, 19 jul. 2026.
AL JAZEERA. Trump says ceasefire ‘over’, re-ups threats after US and Iran trade attacks. Al Jazeera, 8 jul. 2026.
AXIOS. Two US troops killed in Iranian missile attack on Jordan. Axios, 18 jul. 2026.
CBS NEWS. 3 soldiers killed in Iran strike on base in Jordan were from Texas, Hawaii, New York. CBS News, 22 jul. 2026.
CNN. Live updates: Trump signs hard copy of US-Iran agreement. CNN, 17 jun. 2026.
CNN. US military identifies 2 soldiers killed during Iranian strikes in Jordan and 1 killed during drone detonation in Iraq. CNN, 20 jul. 2026.
IRANWIRE. IRGC Attacks US Bases in Bahrain, Kuwait, and Jordan. IranWire, 21 jul. 2026.
JERUSALEM POST. Iran claims to target air bases in Jordan, partially used by US, NATO countries. The Jerusalem Post, 22 jul. 2026.
MIDDLE EAST EYE. Iran hits US bases in Bahrain, Kuwait and Jordan after 10 nights of US attacks. Middle East Eye, 21 jul. 2026.
TASNIM NEWS AGENCY. IRGC Fires Ballistic Missiles at US Command Center, Air Base in Jordan. Tasnim News Agency, 9 jul. 2026.
TASNIM NEWS AGENCY. IRGC Hits MQ-9 Drone Hangars, Command Center at US Base in Jordan. Tasnim News Agency, 12 jul. 2026.
TASNIM NEWS AGENCY. Iranian Missiles Hit US Army Base in Jordan. Tasnim News Agency, 18 jul. 2026.
TASS. Attacks on Iran close door to resolution — Lavrov. TASS, 14 jul. 2026.
TASS. Lavrov says Middle East on shaky ground as US, Iran flout memorandum. TASS, 17 jul. 2026.
TIME. The Eighteen U.S. Service Members Killed in the Iran War. Time, 22 jul. 2026.
WANA (WEST ASIA NEWS AGENCY). IRGC Says Strike on U.S. Bases in Jordan Damaged MQ-9 Drones and Helicopters. WANA, 22 jul. 2026.
WASHINGTON POST. In Tehran, huge throngs mourn assassinated supreme leader Ali Khamenei. The Washington Post, 4 jul. 2026.
WASHINGTON POST. Pentagon names 2 U.S. troops killed in Iranian attack on base in Jordan. The Washington Post, 20 jul. 2026.
WASHINGTON TIMES. Pentagon identifies two U.S. soldiers killed by Iranian attack on Jordan base. The Washington Times, 20 jul. 2026.