O Memorando de Islamabad produziu uma contradição inédita entre as necessidades políticas de Washington e do governo Netanyahu, impondo novos limites à estratégia conjunta dos dois aliados e alterando a correlação de forças na Ásia Ocidental.
O Irã venceu Israel e os EUA ao impor o acordo de cessar-fogo, o Memorando de Islamabad, assinado, curiosamente, por Trump em Versalhes, local onde os alemães assinaram a rendição após a Primeira Guerra Mundial.
O Memorando de 14 pontos foi o reconhecimento da vitória do Irã, ainda maior que a exigência iraniana de 10 pontos. Como havíamos argumentado, a cada dia que Trump atrasa o reconhecimento da derrota, aprofunda o buraco em que se meteu.
Mas outra grande vitória do Irã é ainda mais contundente e diz respeito à situação de Israel.
O Irã conseguiu dividir politicamente os interesses imediatos dos EUA e de Israel, algo que não acontecia desde 1956, durante a crise do Canal de Suez. Não se trata de uma ruptura da aliança estratégica entre Washington e Tel Aviv, mas do surgimento de necessidades políticas distintas diante da nova correlação de forças criada pelo conflito.
Ao impor a cláusula do cessar-fogo no Líbano, condição para que os EUA consigam abrir o Estreito de Ormuz e diminuir o impacto econômico da guerra, o Irã criou uma situação em que Washington passou a necessitar de conter as ações de Israel.
O acordo deixou Israel em uma posição extremamente vulnerável. O fim da guerra significa também o enfraquecimento político de Netanyahu, que enfrenta processos judiciais, oposição crescente e uma crise interna cada vez mais profunda.
Foi nesse contexto que Netanyahu bombardeou o Líbano para tentar melar o acordo e prolongar a guerra, testando até que ponto o Irã manteria sua posição e fecharia o Estreito de Ormuz, mesmo diante da possibilidade de novos ataques norte-americanos.
A muralha persa manteve, mais uma vez, aquilo que havia prometido e fechou o Estreito de Ormuz. Os EUA, sem alternativas imediatas, passaram a pressionar diretamente Israel. Vance foi direto: acusou setores do próprio governo israelense de manipular a opinião pública americana para manter a guerra em curso indefinidamente, e defendeu publicamente um acordo que já impunha restrições à ofensiva israelense contra o Líbano, lembrando aos genocidas que os EUA seguem sendo o único aliado com quem Israel pode contar.
É justamente aí que se configura uma situação em que qualquer opção passa a produzir custos elevados para Washington e, sobretudo, para Israel.
Se Israel obedecer Trump e cessar os ataques contra o Líbano, o Irã sairá como o grande defensor dos povos muçulmanos ao demonstrar que conseguiu impor limites à ação militar israelense.
Por outro lado, se Israel insistir em continuar atacando o Líbano, os EUA serão colocados diante da necessidade de escolher entre preservar o acordo ou acompanhar a escalada israelense. Nesse cenário, abre-se a possibilidade de uma ampliação da legitimidade política do Irã para responder militarmente, aprofundando ainda mais o isolamento internacional de Israel e intensificando sua crise interna.
A história oferece exemplos semelhantes. Durante décadas, a África do Sul contou com o apoio dos EUA e da Europa Ocidental para manter o regime racista do apartheid. O processo que levou à sua queda não ocorreu de forma repentina, mas foi marcado pelo aprofundamento gradual do isolamento político até que seus principais aliados passaram a considerar insustentável a continuidade daquele regime.
Netanyahu insiste em atacar o Líbano na tentativa de inviabilizar o acordo de paz. Entretanto, cada novo movimento nessa direção tende a ampliar o isolamento internacional de Israel e aprofundar a crise do regime sionista.
Não há saída fácil para Israel. O regime entra em uma fase decisiva de sua crise histórica. A questão central já não parece ser se essa crise continuará a se aprofundar, mas qual será sua velocidade e quais serão suas consequências políticas.
Entretanto, a principal consequência do memorando talvez não seja apenas o fortalecimento da posição iraniana ou o aprofundamento da crise israelense. O acordo também criou uma situação inédita: as necessidades políticas imediatas de Washington e do governo Netanyahu deixaram de coincidir plenamente. É nesse contexto que se devem compreender os movimentos de ambos os governos nas semanas seguintes.
O cálculo de Trump é ganhar tempo, fazendo o papel do policial bom, enquanto Israel desempenha o papel do policial mau. Ambos continuam comprometidos com a mesma estratégia de dominação e são corresponsáveis pelo genocídio em curso. O que mudou não foi a natureza dessa aliança, mas as exigências políticas impostas pela nova situação criada pelo memorando.
O genocídio de crianças em Gaza, a destruição de cidades libanesas e a morte de milhares de pessoas são, para essa elite dirigente, apenas elementos de um jogo de poder que envolve interesses de dominação, projeção estratégica e bilhões de dólares. A guerra nunca foi apenas militar; ela é também uma disputa pela reorganização da ordem regional.
Os genocidas não são inimigos e dificilmente deixarão de compartilhar objetivos estratégicos. Continuam pertencendo ao mesmo bloco de poder e preservam interesses estruturais comuns. O que o Irã conseguiu produzir foi uma divergência entre os interesses políticos imediatos de Washington e do governo Netanyahu, sem romper a aliança estratégica que continua existindo entre ambos.
Enquanto Trump necessita controlar a inflação e, sobretudo, reduzir a pressão provocada pelo preço do petróleo para convencer seu eleitorado da eficácia de sua política externa, Netanyahu enfrenta uma dinâmica completamente distinta. Sua sobrevivência política depende da manutenção do estado permanente de guerra e de exceção. Quanto mais o conflito se prolonga, maior é sua capacidade de adiar o enfrentamento da crise política interna que ameaça seu governo.
É justamente essa diferença de necessidades políticas que explica o comportamento aparentemente contraditório dos dois governos.
Embora muitas análises procurem interpretar esses acontecimentos como resultado de relações pessoais entre líderes, o problema não é uma disputa entre Trump, Vance, Hegseth ou Netanyahu. Trata-se de uma contradição produzida pelas necessidades objetivas de cada Estado diante de uma nova correlação de forças.
Trump ainda procura ganhar tempo. Precisa estabilizar o preço do petróleo, reduzir a volatilidade dos mercados e apresentar ao eleitorado norte-americano uma imagem de controle da situação. Daí a alternância entre discursos agressivos, ameaças e declarações conciliatórias dirigidas ao Irã.
Esse espaço de manobra, entretanto, diminui à medida que o tempo passa e nenhuma das pressões exercidas sobre Teerã produz os resultados esperados.
O mesmo vale para Israel. O tempo disponível para ampliar a guerra, provocar novos confrontos ou criar fatos consumados também se reduz rapidamente. Cada nova operação militar passa a produzir custos políticos mais elevados do que benefícios estratégicos.
O horizonte decisivo poderá estar entre setembro e outubro.
Não será simples manter um acordo firmado com o Irã e, simultaneamente, sustentar apoio irrestrito às ofensivas israelenses contra o Líbano. Quanto mais essa contradição se aprofundar, maior tende a ser o capital político acumulado por Teerã perante grande parte do mundo islâmico e das forças antimperialistas.
Israel, por sua vez, continuará enfrentando o desgaste militar no Líbano e uma crise interna cuja dimensão permanece parcialmente ocultada pelo rígido sistema de censura imposto pelo regime.
Essa tensão não significa, necessariamente, uma ruptura entre Washington e Tel Aviv. A aliança estratégica permanece, mas a tentativa de conciliar objetivos políticos distintos torna-se cada vez mais difícil. É justamente dessa contradição que emergem os cenários possíveis para os próximos meses.
Nos próximos meses, assistiremos ao aprofundamento da crise do regime sionista. Um cenário possível é a ampliação da guerra entre Israel e o Líbano, com crescente participação iraniana, prolongando o desgaste militar israelense. Outro cenário é que a própria crise política interna passe a limitar a capacidade de Israel de sustentar operações militares prolongadas.
O genocídio contra o povo palestino já começa a produzir consequências que ultrapassam o campo militar. Netanyahu provavelmente será o primeiro a enfrentar seus efeitos diretos, à medida que as contradições internas do regime se tornem mais difíceis de administrar.
O Irã tende a manter uma estratégia de desgaste prolongado, buscando ampliar os custos políticos e militares para Israel sem abrir mão das vantagens diplomáticas acumuladas ao longo do conflito.
O regime sionista entra, assim, em uma fase particularmente delicada de sua história. O desfecho desse processo dependerá da evolução da guerra, das disputas internas em Israel, das escolhas de Washington e da capacidade do Irã de preservar a iniciativa política conquistada nos últimos meses. Seja qual for o caminho, parece cada vez mais difícil imaginar um retorno ao cenário anterior ao memorando.
Fontes:
AL JAZEERA. Iran, US presidents sign deal to extend ceasefire, reopen Strait of Hormuz. Al Jazeera, 18 jun. 2026.
AL JAZEERA. Since Islamabad MoU: What’s changed for the US, Iran and the Gulf? Al Jazeera, 20 jul. 2026.
AL JAZEERA. Vance says Israeli campaign tried to sway US opinion against Iran diplomacy. Al Jazeera, 16 jul. 2026.
CNN. US releases official agreement with Iran. Read the 14-point text. CNN, 17 jun. 2026.
DECCAN HERALD. Iran shutting Strait of Hormuz to hit Indian economy. Deccan Herald, 2026.
FOX NEWS. Iran’s regime spins nuclear and Strait of Hormuz deal with Trump as victory over US, Israel. Fox News, 15 jun. 2026.
GLOBAL TIMES. China calls on US, Iran to follow through on MoU, avoid resorting to force. Global Times, jul. 2026.
MILITARY TIMES. Read the 14-point memorandum of understanding between the United States and Iran. Military Times, 17 jun. 2026.
NBC NEWS. Trump and Iran’s president sign initial deal to end war, open Strait of Hormuz and ease sanctions. NBC News, 18 jun. 2026.
OUTLOOK INDIA. US-Iran Hormuz Deal Explained. Outlook India, 2026.
PRESS TV. Islamabad MoU in crisis as US ‘gutted’ 14-point agreement: Iran. Press TV, 13 jul. 2026.
TASS. Lavrov says Middle East on shaky ground as US, Iran flout memorandum. TASS, 17 jul. 2026.
TASS. Russia expects US-Iran memorandum to prevent resumption of violence — Lavrov. TASS, 19 jun. 2026.