Como todo mundo que é derrotado, Trump e Hegseth sonham com uma revanche. A derrota dos EUA para o Irã já havia se consumado desde um mês atrás. Não havia mais saída para os EUA que aceitar a derrota. Era uma típica posição de Xeque em 2 lances.
A cúpula trumpista não queria aceitar a realidade. Mesmo o tempo correndo a favor do Irã, tentaram ameaçar, intimidar e fazer as mais toscas artimanhas, como fechar o já fechado Estreito de Ormuz.
O objetivo era ganhar um tempo, esperar algum erro do Irã, que o comando da Guarda Revolucionária aceitasse alguma provocação e de alguma forma milagrosa os estrategistas entregassem o jogo que já tinham ganho.
Mais um erro estratégico dos norte-americanos que expôs a sua decadência. Enquanto perdiam tempo tentando reverter o que já estava decidido em campo.
O problema dessa insistência é que quanto mais Trump resiste em aceitar o que já está definido em campo, mais aprofunda a derrota e mais humilhante isso vai se tornando. Em sua típica arrogância, gastou todas as ameaças — em todas o Irã pagou para ver — enquanto o mundo temia que Trump realmente tivesse uma carta na manga. Não tinha nada. E a cada sexta-feira, com o fechamento dos mercados, Trump era obrigado a fazer alguma declaração amena que indicasse o fim das agressões contra o Irã para que o preço do petróleo se mantivesse abaixo dos 100 dólares.
Essa dinâmica se estendeu pelo último mês. Hegseth com declarações triunfalistas que a cada dia demonstravam estar mais translocadas, vazias e já beirando o absoluto ridículo.
O Irã se manteve firme, não cedeu, não aceitou provocações. Mesmo enquanto o cão de guarda sionista provocava com genocídio no Sul do Líbano.
Os EUA imploraram um acordo, mas os iranianos não aceitaram rebaixar as suas exigências. Apenas aguardou, como um caçador que aguarda a sua presa ferida desistir de lutar para finalizar o abate.
Trump resolveu aceitar o inevitável e declarou que os EUA sairão da guerra. Para ele ficou impossível prosseguir com esse jogo. Com 60 dias seria necessária uma aprovação do Congresso dos EUA, e com o desgaste que conseguiu, a humilhação seria ainda maior.
Sobrou para Trump o desejo da revanche e a tentativa de ao menos negociar o controle do Estreito de Ormuz com o status que estava antes da guerra, sem cobranças e controle do Irã.
O Irã conquistou vitórias inéditas
A primeira vitória foi quebrar o mito da invencibilidade aérea dos EUA. Desde a Guerra do Vietnã, os EUA haviam assumido como doutrina o mínimo de baixas e o ataque com força avassaladora.
Embora tenha sido obrigado a se retirar do Afeganistão e do Iraque, a superioridade aérea norte-americana fazia com que seus caças e bombardeiros pudessem entrar em qualquer lugar — é claro que neste “qualquer lugar” não estamos falando de China e Rússia. Poucos países podiam fazer alguma coisa quando os porta-aviões norte-americanos se aproximavam e seus caças decolavam.
Os EUA podiam escolher seus alvos, ameaçar e bombardear sem que houvesse consequências imediatas, sem que o atacado conseguisse contra-atacar de forma significativa. Era uma medida orgulhosa dos EUA, mas que tinha consequências materiais objetivas no sentido de causar dano nos EUA. O Irã abateu uma quantidade enorme de aeronaves norte-americanas, muitas delas que terão dificuldades em serem repostas.
Segundo diversas estimativas, que variam muito, podemos ter uma dimensão do prejuízo dos EUA a partir do que o comando iraniano e fontes não ocidentais afirmam:

- 2 F-35 Lightning II → cerca de US$ 190–240 milhões
- 4 F-15E Strike Eagle → cerca de US$ 360–400 milhões
- 1 A-10 Thunderbolt II → cerca de US$ 20 milhões (valor residual/modernizado)
- até 5 MQ-9 Reaper → cerca de US$ 150–200 milhões
- 2 UH-60/HH-60 Black Hawk → cerca de US$ 40–60 milhões
- 1 CH-47 Chinook → cerca de US$ 35–45 milhões
- 1 CH-53E Super Stallion → cerca de US$ 90–100 milhões
- 1 E-3 Sentry AWACS → cerca de US$ 250–400 milhões (dependendo da modernização)
Total: entre US$ 3 e 4 bilhões de dólares.
Essa exposição da fragilidade aérea estadunidense é estratégica e retira em grande parte a capacidade dissuasória dos EUA. Não só os EUA agora precisam ter cuidado com suas aeronaves voando por aí, como a possibilidade dos aviões dos EUA serem abatidos coloca essa medida como urgente para a doutrina de defesa nacional de vários países. A partir daqui, todos os países que desejam ter soberania irão investir em equipamentos que possam atingir essas aeronaves e a experiência iraniana será estudada.
A segunda grande derrota diz respeito à influência dos EUA na região do Oeste da Ásia, chamada pelos europeus de “Oriente Médio”. Embora os EUA já tivessem amargurado duas grandes derrotas com o abandono do Iraque e do Afeganistão, os chamados Acordos de Abraão, que vinham sendo costurados entre Israel e os países árabes desde 2020, acabariam por isolar o Irã e as forças da Resistência, deixando a situação da Palestina no esquecimento internacional.
Com os acordos, Israel daria um grande passo para ampliar sua influência, enquanto liberaria os EUA para se concentrar no combate à China, fazer provocações e desestabilizar o outro lado da Ásia.
A Operação Dilúvio de Al Aqsa, dirigida pela resistência nacional palestina, modificou a situação de isolamento de Gaza a partir de outubro de 2023.
A ação palestina em Gaza trouxe para as manchetes a barbárie sionista, enquanto atrevidos guerrilheiros resistiam a um dos mais brutais cercos da história, em uma faixa de praia de pouco mais de 40 km, entre tuneis, com morteiros e lançadores de foguetes, causando baixas e destruindo equipamentos israelenses ultramodernos.
Israel não conseguiu assumir o controle de Gaza e o Hamas continua com seu exército, agora à luz do dia, controlando de fato o território.
A Palestina foi o primeiro grande golpe no sonho expansionista do sionismo. Mas embora o esforço de guerra israelense tenha um preço político e econômico, em termos de baixas civis os números eram desproporcionais e a população israelense parecia blindada, assistindo à morte de crianças palestinas com uma indiferença moral e uma grande aprovação do genocídio.
Com a entrada do Irã na guerra, a situação mudou completamente. Primeiro, as bases norte-americanas que forneciam apoio logístico para as operações no Oriente Médio foram danificadas. Recentemente, o Washington Post apresentou o tamanho da destruição, que ao que parece, são ainda maiores do que se esperava.

Por outro lado, as monarquias vassalas ao império foram colocadas em xeque. O Irã proibiu que qualquer um desses países colaborasse com os EUA sem que houvesse retaliação de mísseis e drones iranianos.
Os EUA não poderiam mais oferecer proteção às monarquias e estas ficarem contra um Irã altivo, antiimperialista e vitorioso. Isso significaria se colocar contra populações de maioria xiita, que reconhecem a liderança iraniana com respeito, enquanto seus governantes absolutistas apoiam um Ocidente islamofóbico que bombardeia cidades, assassina aiatolás e crianças em áreas civis.
Seria ingênuo, para dizer o mínimo, acreditar que as populações islâmicas de trabalhadores, que não fazem parte de uma elite de apaniguados do petróleo, iriam apoiar um Trump ao invés dos líderes iranianos.
E por isso, essas monarquias vassalas do imperialismo e fiadoras pelo esquema dos petrodólares se fingiram de mortas e, na medida em que o Irã foi vencendo, ficaram ainda mais em silêncio.
Os Emirados Árabes se aliou ou têm procurado manter relações com Israel, enquanto rompem com a OPEP e se afastam da Arábia Saudita. Mas a Arábia Saudita já procura estabelecer uma boa relação com o Irã, enquanto os EUA juntam seus panos de bunda e deixam a região. Israel é o grande derrotado. Sofreu com bombardeios e perdeu seu status de vítima eterna do Holocausto nazista.
Israel é considerado um Estado genocida em grande parte do mundo. Não conseguiu retomar e assumir o controle sobre Gaza, mantendo apenas o genocídio no sul do Líbano e na Faixa de Gaza, aumentando o ódio e engrossando as fileiras de toda a resistência anti-imperialista — principalmente antissionista — em todo o mundo islâmico.
Os Acordos de Abraão foram derrotados. Israel se afunda em contradições: saída de israelenses, falta de tropas, crise política, ameaça de prisão para Netanyahu.
O sionismo só pode existir com a guerra, e faz isso desde 1948. O problema é que agora o seu padrinho já se retirou e a mesada que recebe pode diminuir e até cessar, já que esse apoio estadunidense a Israel tem sido muito questionado nos EUA, especialmente por apoiadores e antigos apoiadores de Trump, como Tucker Carlson.
O Irã controlará o Estreito e poderá influir no destino dessas monarquias sem que os EUA possam fazer muita coisa. China e Rússia ganharão ainda mais espaço e o Irã poderá exercer a sua soberania com uma capacidade até agora inédita.
Ao que tudo indica, essa derrota dos EUA e Israel para o Irã se constituirá como um importante marco na história do declínio do império estadunidense e um grande passo para o fim do regime racista que o sionismo mantém aí em Israel.
Fontes
- Washington Post – Iranian attacks cause significant damage to U.S. bases — Análise via imagens de satélite dos danos causados pelos ataques iranianos em bases militares dos EUA.
- SIPRI Military Expenditure Database — Stockholm International Peace Research Institute fornece dados sobre custos de equipamento militar e perdas de aeronaves.
- Al Jazeera – October 7 and after: Israel-Gaza war in maps and charts — Cronologia completa da Operação Dilúvio de Al Aqsa e consequências para Gaza.
- Reuters – UAE, Saudi Arabia shift ties amid Iran deal talks — Documentação do realinhamento das monarquias do Golfo Pérsico com o Irã.
- BBC News – Trump administration withdraws from Iran conflict
- The Economist – The new great game in the Middle East —
- TASNIM News Agency — Agência oficial vinculada ao IRGC.
- TASS Russian News Agency — Agência oficial russa.
- Xinhua News Agency — Agência estatal chinesa.